20/03/2020
Comunicado da APAR - Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso"
OS PRESOS TAMBÉM SÃO GENTE!
A “APAR – Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso” tem seguido, com toda a atenção, as constantes intervenções de políticos, de todos os quadrantes, acerca do Coronavirus.
Seguimos as suas preocupações (que apoiamos integralmente) com hospitais, lares, discotecas, bares, futebol e outros desportos, cruzeiros, restaurantes, centros comerciais, etc., etc., etc..
Tomámos nota de que o Partdo “PAN – Pessoas, Animais e Naturezas”, pela voz comovida de uma sua deputada, até exigiu medidas para os “animais de companhia”.
Constatámos que, com excepção do Senhor Deputado JOSÉ MANUEL PUREZA, do Bloco de Esquerda, que apresentou um conjunto de perguntas à Senhora Ministra da Justiça sobre a situação das prisões portuguesas, nenhum político teve intervenção digna desse nome sobre o assunto.
Como podemos explicar, a todos eles, sem cair na ofensa, que OS PRESOS TAMBÉM SÃO GENTE?
Vejamos:
Nas cadeias portuguesas não há uma máscara, uma gota de gel desinfectante, os reclusos estão proibidos de ter álcool nas celas (que também não conseguiriam arranjar), não dispõem de produtos higiénicos para limpar celas e sanitários (as cadeias não os distribuem e, em muitas delas, não os conseguem comprar nas cantinas) e, cúmulo dos cúmulos, os guardas prisionais andam sem luvas nem máscaras sendo que, segundo os seus sindicatos, alguns directores os proíbem de as usar porque isso pode provocar o pânico nos reclusos.
Essas mentes brilhantes acreditam que os presos (que consideram atrasados mentais!) ficarão mais alarmados se forem contactados por um guarda protegido do que se lhe aparecer, à frente, de máscara e luvas como as regras deviam impor.
Fossem estes génios directores de hospitais e os médicos nem de bata andariam para não amedrontarem os doentes!
A “APAR” endereçou três emails às mais altas Entidades (Presidentes da República e da Assembleia da República, Primeiro Ministro, Ministra da Justiça, Provedora da Justiça, Presidente da 1ª Comissão da Assembleia da República e a todos os Grupos Parlamentares com uma proposta que poderia levar à saída de cerca de 4.000 reclusos, que não trariam risco para a sociedade, e passariam a ficar detidos em casa, o que permitiria que os poucos recursos da Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais pudessem ter uma maior eficácia.
O Bloco de Esquerda tomou a medida acima indicada, no seguimento dos nossos emails, o Partido Comunista prometeu que iria analisar as nossas propostas, o Primeiro-Ministro endereçou para a Ministra da Justiça, o Presidente da AR confirmou a recepção e ninguém mais respondeu.
As Igrejas, em Portugal, não falam dos presos, ao contrário do que acontece em tantos países onde pedem atenção especial para a situação degradante e perigosíssima nas cadeias.
Não há quem desconheça que, por razões mais do que evidentes, se um recluso ficar infectado a propagação será rápida e generalizada na cadeia.
O que talvez não estejam a ter em conta é que, quando tal acontecer, e vai acontecer mais cedo ou mais tarde, os guardas prisionais ficarão em risco elevadíssimo tal como as suas famílias, amigos e vizinhos.
E com os poucos funcionários que ainda vão às prisões poderá acontecer o mesmo.
Posto isto:
Se não for pela preocupação de ajudar uma comunidade em risco, isolada, sem qualquer apoio, mesmo sendo considerada como um aglomerado de “cidadãos de segunda”, pelo menos façam-no por medo de poder agravar, ali, mais um caso grave de saúde pública.
Senhores Políticos se não querem usar o coração… usem o cérebro.