15/08/2026
QUANTOS MAIS TÊM DE MORRER PARA ALGUMA COISA MUDAR?
Ontem foi mais um.
No mês passado, para nós, foi alguém muito próximo.
Amanhã… quem será?
É uma pergunta terrível. Mas talvez tenha chegado a altura de a fazermos sem rodeios.
Porque continuar a escrever mensagens de condolências, colocar fotografias a preto e branco e dizer que “é preciso ter cuidado na estrada” claramente não chega.
Não chega.
Ontem, um jovem saiu para fazer aquilo que amava.
Para competir numa prova de ciclismo, num dos maiores eventos desportivos do nosso país.
E não voltou.
Há poucas semanas, alguém muito próximo de nós também saiu para andar de bicicleta.
Não saiu para desafiar a morte.
Não saiu para incomodar ninguém.
Não saiu para disputar a estrada com os automóveis.
Saiu para pedalar.
Como nós fazemos.
Como milhares de pessoas fazem todos os dias.
E também não voltou.
Quando ouvimos falar de uma morte na estrada, muitas vezes vemos apenas uma notícia.
Um título.
Uma fotografia.
Uma idade.
Uma bicicleta destruída.
Uma estrada cortada.
E depois continuamos a nossa vida.
Mas há momentos em que percebemos, da pior maneira possível, aquilo que existe por detrás da expressão fria:
“Morreu um ciclista.”
Existe uma pessoa.
Existe uma família que recebe uma notícia que ninguém deveria receber.
Existem amigos que f**am à espera de alguém que nunca mais vai aparecer.
Existe um lugar que f**a vazio.
Existe uma bicicleta que deixa de sair.
Existem conversas que f**aram por terminar.
Existem planos que nunca vão acontecer.
Existe alguém que, naquela manhã, disse provavelmente um simples “até logo” sem imaginar que não haveria um logo.
E existe uma vida inteira que simplesmente deixa de existir.
Por isso, aquilo que aconteceu ontem não pode ser visto apenas como mais uma tragédia no ciclismo.
Tal como aquilo que aconteceu há poucas semanas não pode ser reduzido a mais um acidente rodoviário.
Temos um problema.
E temos de parar de fingir que não temos.
Porque se um ciclista pode perder a vida durante uma das maiores provas de ciclismo do país, num evento com organização, veículos de apoio, forças de segurança, estradas condicionadas e toda uma estrutura dedicada à realização da prova, então existe uma pergunta que Portugal tem obrigatoriamente de fazer:
Que segurança tem quem simplesmente sai de casa de bicicleta?
Quem vai trabalhar?
Quem vai treinar?
Quem dá uma volta ao domingo?
Quem sai sozinho numa estrada secundária, sem câmaras, sem polícia, sem carros de apoio e sem ninguém para o proteger?
E talvez o problema comece precisamente aqui:
habituámo-nos.
Habituámo-nos a ver notícias de ciclistas atropelados.
Habituámo-nos às ultrapassagens a centímetros.
Às buzinadelas.
Aos insultos.
À impaciência.
Aos automóveis que passam como se do outro lado não estivesse uma pessoa.
Habituámo-nos a ouvir que “os ciclistas também fazem asneiras”, como se o erro de alguns pudesse justif**ar colocar em risco a vida de todos os outros.
Habituámo-nos à ideia absurda de que quem anda de bicicleta tem constantemente de pedir desculpa por ocupar uma estrada que também é sua.
E não.
Um ciclista não é um obstáculo.
Não é um objeto que atrasa o trânsito.
Não é algo que tem de desaparecer rapidamente da frente de um automóvel.
É uma pessoa.
Uma pessoa sem uma carroçaria à sua volta.
Sem airbags.
Sem toneladas de metal para a proteger.
Entre um automóvel e uma bicicleta nunca existirá igualdade de forças.
Por isso, quem conduz um veículo tem de perceber a enorme responsabilidade que leva nas mãos.
E isto não é um ataque aos automobilistas.
Nós também conduzimos.
Somos automobilistas e somos ciclistas.
Sabemos perfeitamente que todos podemos cometer erros.
Mas também sabemos que existem erros que, quando estamos ao volante, podem custar a vida a outra pessoa.
Cinco segundos de impaciência não podem valer uma vida.
Uma mensagem no telemóvel não pode valer uma vida.
Uma ultrapassagem onde não existe espaço não pode valer uma vida.
Uma curva feita depressa demais não pode valer uma vida.
Chegar dois minutos mais cedo não pode valer uma vida.
Nenhuma pressa vale uma vida.
Quando um automobilista passa demasiado perto de um ciclista e pensa “não aconteceu nada”, aconteceu alguma coisa.
Quando alguém ultrapassa sem condições e pensa “correu bem”, aconteceu alguma coisa.
Quando alguém olha para o telemóvel durante alguns segundos e pensa “não bati em ninguém”, aconteceu alguma coisa.
Porque cada vez que fazemos isso e nada acontece, normalizamos um comportamento que um dia pode correr mal.
E nesse dia poderá não existir oportunidade para pedir desculpa.
Para quem conduz, pode ser um erro de segundos.
Para quem vai na bicicleta, pode ser o último segundo da sua vida.
Não queremos uma guerra entre automobilistas e ciclistas.
Não queremos alimentar ódio.
Não queremos apontar o dedo indiscriminadamente a quem conduz.
Queremos algo muito mais simples.
Queremos chegar a casa.
Só isso.
Queremos sair para pedalar e regressar.
Queremos que os nossos familiares não tenham de f**ar preocupados sempre que saímos.
Queremos poder fazer aquilo de que gostamos sem sentirmos que estamos constantemente a colocar a nossa vida nas mãos da atenção, da paciência ou da consciência de outra pessoa.
Queremos que a distância de segurança seja respeitada.
Queremos fiscalização.
Queremos consequências para comportamentos que colocam vidas em perigo.
Queremos educação rodoviária a sério.
Queremos estradas pensadas também para quem não está dentro de um automóvel.
Queremos que as leis deixem de existir apenas no papel.
Mas, acima de tudo, precisamos de uma mudança de mentalidade.
Porque podemos alterar o Código da Estrada dez vezes.
Podemos fazer campanhas.
Podemos colocar cartazes.
Podemos publicar fotografias de bicicletas destruídas.
Mas enquanto houver alguém que olhe para um ciclista à sua frente e pense primeiro:
“Está a atrasar-me.”
em vez de pensar:
“Ali vai uma pessoa.”
continuaremos a ter um problema.
Nos últimos tempos, voltámos demasiadas vezes a ver bicicletas que regressaram sem quem saiu nelas.
Voltámos a ver famílias destruídas.
Amigos sem palavras.
Equipas de luto.
Comunidades inteiras revoltadas.
E recusamo-nos a aceitar que isto seja normal.
Uma morte na estrada não pode tornar-se apenas mais uma publicação nas redes sociais.
Não pode ser uma fotografia a preto e branco hoje e esquecimento amanhã.
Não pode ser mais um número numa estatística.
Porque cada número tinha um nome.
Tinha uma família.
Tinha amigos.
Tinha sonhos.
Tinha planos para o dia seguinte.
Tinha alguém à espera.
E é precisamente essa palavra — “próximo” — que nos deveria assustar.
Porque, se nada mudar, haverá um próximo.
Depois outro.
E voltaremos todos às redes sociais.
Voltaremos a escrever “descansa em paz”.
Voltaremos a colocar um laço preto.
Voltaremos a dizer que é uma tragédia.
Voltaremos a perguntar como foi possível.
E alguns dias depois a vida continuará.
Menos para uma família.
É isto que temos de impedir.
Não queremos mais minutos de silêncio.
Queremos vidas.
Não queremos mais bicicletas encostadas para sempre.
Queremos pessoas a regressar a casa.
Não queremos continuar a fazer homenagens a ciclistas mortos.
Queremos deixar de ter motivos para as fazer.
Hoje não queremos mencionar nomes.
Porque esta mensagem não pertence apenas a uma pessoa, a uma família, a uma equipa ou a uma tragédia.
Pertence a todos.
Aos que já partiram.
Aos que f**aram.
Aos que continuam a pedalar.
E também a todos aqueles que conduzem e que amanhã, ao encontrarem uma bicicleta na estrada, podem fazer a diferença com uma decisão tão simples como esperar alguns segundos.
Abrande.
Espere.
Dê espaço.
Ultrapasse apenas quando for seguro.
Largue o telemóvel.
Não arrisque.
Do outro lado não vai “um ciclista”.
Vai uma pessoa.
Pode ser um pai.
Uma mãe.
Um filho.
Uma filha.
Um irmão.
Uma irmã.
Um amigo.
Um colega.
Alguém que é o mundo inteiro de outra pessoa.
E quando amanhã colocarmos novamente o capacete, apertarmos os sapatos e sairmos para a estrada, não queremos fazê-lo com medo.
Queremos fazê-lo sabendo que existe respeito.
Responsabilidade.
Consciência.
Queremos segurança.
Queremos chegar a casa.
Porque ninguém deveria despedir-se da família para ir andar de bicicleta sem saber se aquela poderá ser a última despedida.
E porque uma sociedade que começa a aceitar como normal que alguém possa morrer simplesmente por escolher deslocar-se, treinar ou praticar desporto numa bicicleta tem muito mais do que um problema rodoviário.
Tem um problema de consciência.
Já morreram demasiados.
Já f**aram demasiadas bicicletas sem dono.
Já houve demasiadas famílias a receber aquela chamada.
Já escrevemos demasiadas vezes:
“Descansa em paz.”
Está na altura de escrevermos outra coisa.
Está na altura de podermos escrever:
“Chegou a casa.”
Por todos os que já não chegaram.
E por todos os que amanhã voltarão à estrada.
É preciso mudar.
Não depois da próxima tragédia.
Agora.