19/12/2021
As Escolas de Futebol e a Aprendizagem do jogo
Uma vez do desporto, para sempre do desporto!
Faz dias que me assolou um pensamento e que me deixou inquietante, respeitante ao assunto que vos vou contar. Deixo-vos aqui a minha opinião acerca deste tema que me fervilha desde então. Cá vai:
- Há cerca de 20 anos começaram a existir as primeiras escolas de futebol em Portugal associadas aos grandes clubes nacionais. Em 2008 tive a ideia de criar a primeira escola de futebol em Tavira dentro dos parâmetros de conceção moderna com o objetivo de promover a prática do futebol de forma controlada e condicionada para que as crianças de Tavira pudessem aprender a jogar futebol sob a orientação de treinadores credenciados e dentro de uma filosofia de escola recreativa. Ao longo dos anos surgiram dezenas no Algarve e centenas em todo o país, todas mais ou menos com o mesmo objetivo.
- A ideologia desportiva destas, era a de melhorar a performance futebolística naquilo que se refere à aprendizagem do jogo, dando oportunidade a todas as crianças sem exceção de poderem desfrutar da aprendizagem do jogo jogado. Assim estaríamos a contribuir para um aumento da motivação, da oportunidade, de praticantes, de qualidade, igualdade e diminuição do abandono.
- Olhando para trás, e depois de observar alguns dos jovens em jogo que iniciaram a prática do futebol nessa altura, vejo que muita coisa não terminou como esperávamos, não sei se o modelo de escolas errou na metodologia de ensino a aplicar ou se todas as sinergias no sentido de alterar a forma como o praticante evoluía não foram suficientes para os ajudar a melhorar.
- Digo isto com um misto de desilusão e apreensão: - algo se passa na sociedade atual que condiciona a aprendizagem dos jovens, ou as escolas não fizeram nem fazem a diferença na aprendizagem e na melhoria do jogo dos jovens atletas.
- Senão vejamos, há 20, 30 anos atrás não existiam escolas de futebol, os rapazes chegavam aos clubes com 15, 16 anos e levavam com eles um reportório motor muito superior ao que muitos desses atletas de escola tem hoje, sem falar daquilo que é o mais importante, que é a aprendizagem dos fundamentos do jogo, da sua essência e criatividade.
- Fazendo um périplo por esses campos de futebol em dia de jogo. Analisando a qualidade técnico-táctica do jogo das equipas de juniores de hoje podemos opinar que a mesma não é aquilo que se esperaria, em minha opinião os resultados obtidos durante o seu percurso desportivo não são aqueles espectáveis e que haveriam de fazer diferença.
- Se nos lembrar-mos dos jovens que iniciaram a sua prática, antes do nascimento das escolas, que tiveram sem muito talento um percurso desportivo longo e com alguma notoriedade, vejo que a qualidade individual e coletiva não era inferior à de hoje, com exceções para os prodígios, que com ou sem escola seriam sempre prodígios.
- Apraz-me dizer com lisura que esses jovens aprendendo o jogo sozinhos na rua, nos bairros, nos polidesportivos errando e acertando de acordo com as suas potencialidades e natureza, sem a vigilância de nenhum treinador ou professor, exploraram mais o jogo que qualquer criança de hoje.
- A formatação, a demasiada seriedade que se impõem no jogo das crianças, retirou ao jogo a essência da brincadeira, da criatividade, do prazer do jogo pelo jogo. A essência e a didática do jogo de rua foi completamente abolida tornando o jogo dos pequenos, um jogo à imagem dos adultos, precisamente o contrário daquilo que as escolas deveriam proporcionar.
- Por outro lado, podemos também incluir a falta de paciência dos jovens para a aprendizagem e a falta de resiliência quando o insucesso aparece, assim como o excesso de proteção e idolatrísmo dos pais querendo pequenos “Ronaldos“ para amanhã. A maioria dos treinadores e pais não deixam que as crianças aprendam de forma natural pressionando os pequenos para o resultado e não para a aprendizagem queimando etapas no seu desenvolvimento, que contribui para uma estagnação a médio/longo prazo e para um insucesso e abandono desportivo numa fase mais avançada.
- De uma forma sucinta, os jogadores que com ou sem escola haveriam de vingar pelas suas capacidades continuam e continuarão a vingar. O que acontece é que aqueles com menos talento poderiam pelo menos ter aprendido melhor o jogo, mas do ponto vista dos fundamentos e princípios não o fizeram na sua globalidade. E isso é que gera em mim esta dúvida, se realmente as escolas de futebol naquilo que à aprendizagem do jogo diz respeito têm cumprido realmente a sua função.
- Claro que do ponto de vista social, ético, moral, económico e cultural estas fizeram e fazem todo o sentido e foram uma lufada de fresco no panorama futebolístico aproveitando a inercia dos clubes e só por isso já valeram a pena terem surgido.
Nuno Encarnação
Prof E.F/Treinador Grau3
18/12/2021