12/04/2026
ARTIGO DE OPINIÃO
A SOLIDÃO DE QUEM NUNCA SE PODE ESCONDER
Ontem ouvi em direto a conferência de imprensa de Mourinho. Já tinha ouvido a que deu depois do jogo com o Casa Pia.
Discursos diferentes? Críticas aos jogadores?
Só quem nunca foi treinador de futebol pode criticar.
Só nós, treinadores, sabemos o peso de um resultado negativo, principalmente depois do silvo do apito final de um árbitro.
Esse sentimento não sai de nós.
Só quem passou por esse momento sabe do que falo.
Há uma coisa que ninguém tira a um treinador de futebol: a obrigação de aparecer.
Tem de aparecer depois de uma derrota.
Tem de aparecer depois de um empate que corrói por dentro.
Tem de aparecer com microfones na cara, câmaras apontadas, e dizer alguma coisa que faça sentido quando, por dentro, muitas vezes nada faz sentido nenhum.
Quem nunca viveu isto por dentro acha que é fácil. Quem conhece o ofício sabe que é um dos momentos mais difíceis da profissão.
Esta semana voltou a acontecer o que acontece sempre. Um treinador é criticado após um resultado negativo.
As redes sociais transformam-se em tribunal, o veredicto sai em segundos, pede-se o regresso do Lage (que também foi tão criticado) e ninguém pensa em mais nada.
É assim. É rápido. É cruel. E quase ninguém se coloca no lugar do treinador.
Mas eu coloco-me. E quero falar disso.
Porque há uma injustiça silenciosa que atravessa esta profissão de ponta a ponta e que raramente alguém tem coragem de nomear.
O treinador é o primeiro a aparecer quando as coisas correm mal. É o rosto da derrota, o alvo mais fácil, a explicação mais conveniente.
Quando as coisas correm bem, desaparece para segundo plano. Os jogadores brilharam, o clube funcionou, a estrutura ajudou. Quando correm mal, volta ao centro. Sempre.
O culpado é sempre o mesmo: o treinador.
Ninguém se lembra que também não resultou com outros treinadores. Ninguém se lembra que não foi só com este treinador que a equipa não tem tido sucesso. Ninguém se lembra que há problemas atrás da cortina que ninguém vê e com os quais os treinadores têm de lidar e trabalhar. Todos os dias. Longe dos holofotes.
O pior não é a crítica. A crítica faz parte. Os treinadores lidam com ela. O pior é a amnésia coletiva de quem critica. O pior é a falta de conhecimento de causa de quem critica.
O treinador que hoje é apelidado de incompetente, é o mesmo que há três semanas estava a fazer um trabalho extraordinário.
O plantel que hoje não tem qualidade é o mesmo que na semana passada foi elogiado até ao exagero. A ideia de jogo que hoje é ultrapassada é a mesma que há um mês era moderna e corajosa.
Tudo muda com o resultado do último jogo. Tudo. E o treinador f**a ali, no meio, a absorver cada oscilação como se fosse exclusivamente sua.
Há algo que quem está de fora nunca compreende de verdade. Muitas vezes um treinador não escolhe os jogadores que tem no plantel. Muitas vezes trabalha com o que lhe dão. E quando o que lhe dão não encaixa naquilo em que o treinador acredita, naquilo que quer construir, a tensão é real e permanente. Não são desculpas. Isto é a realidade nua do ofício.
Adaptar, insistir, ceder, voltar a insistir.
E fazer tudo isto enquanto o mundo lá fora já formou opinião com base em noventa minutos e exige resultados.
Quando um treinador fala publicamente e mostra frustração, quando defende uma ideia ou critica o que não correu bem, isso não é ego.
É muitas vezes a única tribuna que tem.
Não há outra.
Não há comunicado interno que chegue ao público, não há explicação que saia filtrada e justa. Há a conferência de imprensa.
É crua, é em direto, sem rede.
E é nesse momento que muitos julgam tudo o que um treinador é ou deixa de ser.
E depois há ainda outro problema: a imprensa que distorce. Mourinho falou ontem de uma reunião que teve com os jogadores após o Casa Pia.
Dois jornalistas da mesma empresa estiveram presentes e escreveram coisas completamente opostas. Um descreveu uma reunião tranquila, com empatia, tom de voz baixo, sem acusações.
O outro escreveu que foi um vulcão, que houve humilhações em frente ao grupo. Mesma sala, mesma reunião, dois relatos que não podiam ser mais diferentes. Mourinho disse o que eu diria: um dos dois é mentiroso. E esta é a realidade com que os treinadores convivem todos os dias. Não são só julgados pelo que fazem e as opções que tomam. São julgados pelo que outros decidem escrever sobre o que fizeram e ainda têm de lidar de forma constante com a linha que separa a mentira da verdade.
Quando Mourinho referiu os títulos que conquistou, houve quem lesse arrogância.
Eu li outra coisa. Li um profissional a exigir o respeito que lhe é devido.
Há uma diferença enorme entre puxar dos galões por vaidade e invocar um percurso para dizer: eu sei o que estou a fazer, já provei que sei, e mereço que me ouçam com atenção antes de me julgarem. Essa distinção importa. E foi ignorada por quase toda a gente.
Ontem disse também algo que achei revelador. Perguntou-se a si próprio se seria o único treinador no mundo a querer mudar alguma coisa no seu plantel. Disse que, no mundo inteiro, só há cinco que não mudariam nada nos planteis. Cinco? Se calhar até exagerou no número.
Um bom treinador nunca está 100% satisfeito com o seu plantel. Está sempre à procura de mais e melhor qualidade. E de jogadores que lhe aportem essa qualidade ou qualidades que vão ao encontro às ideias de jogo do treinador.
Depois do “tsunami de reações” às palavras de Mourinho no pós-Casa Pia, José Mourinho teve a lucidez de admitir que naquela conferência, a frustração falou mais alto!
E não, não é incoerência. Isso é um treinador a separar a emoção da decisão, algo que poucos conseguem fazer e que ainda menos reconhecem em público.
Depois, o que me incomoda profundamente é ver pessoas a comentar com uma certeza que só existe na ignorância. A certeza de quem nunca geriu um balneário dividido, de quem nunca passou noites sem dormir a preparar jogos e treinos, de quem nunca tomou uma decisão tática ou estratégica numa madrugada em que o sono não chega porque o dia de jogo é o mais importante que temos na nossa vida, de que nunca olhou nos olhos de um jogador ou de um plantel e sentiu que a conversa não ia correr bem.
Essas certezas de quem comenta são muito confortáveis. Mas também são completamente vazias.
Há ainda outra coisa que poucos dizem abertamente. Mourinho tem vindo a perder terreno naquilo que sempre foi uma das suas maiores armas: a comunicação. Houve um tempo em que cada conferência de imprensa era uma obra de sedução, onde saía sempre com a narrativa do lado dele. Esse dom não desapareceu, mas algo mudou pelo caminho. Em que momento aconteceu, não vos sei dizer com precisão. Mas aconteceu. E o curioso é que quase ninguém parece ter dado conta do ponto exato em que isso se foi perdendo.
E depois há a imprensa. A que já tem até o sucessor de Mourinho escolhido antes de o atual treinador ter sequer falhado o suficiente para justif**ar a saída. Sem nomear ninguém, é evidente o esforço de uma parte da comunicação social em colocar outro nome naquela cadeira. Como se a pressa de mudar fosse mais importante do que a paciência de construir.
Os rivais do Benf**a fariam bem em prestar atenção a uma coisa. De todos os profissionais encarnados, Mourinho é, sem dúvida, o mais comprometido. O que mais quer ganhar. O que mais quer ter sucesso no projeto Benf**a.
Nota-se na postura, nota-se no discurso, nota-se na forma como fala do clube mesmo quando está a ser questionado sobre o seu próprio futuro. Isso não é marketing. Isso é pertença. E pertença, num treinador, é perigosa para quem joga contra ele.
E que bom seria para o Benf**a se os jogadores conseguissem mostrar em campo metade da vontade de vencer que Mourinho demonstra em cada conferência de imprensa, nas que acontecem antes dos jogos e nas que acontecem depois.
Os treinadores erram. Claro que erram. Nós próprios sabemos melhor do que ninguém os erros que cometemos, porque temos de nos autoavaliar todos os dias. Não precisamos que nos digam. Penitenciamos-nos a nós próprios em cada erro! Revemos cada erro, quase sempre sozinhos, muitas vezes quando o mundo está a dormir e quando ninguém vê. Sentimos o erro como ninguém o sente. Sentimos a frustração e a responsabilidade de cada erro que cometemos enquanto líderes de um grupo.
Mas entre o errar e o ser destruído publicamente vai uma distância enorme. Ou pelo menos devia existir. Uma distância que o futebol português insiste em não respeitar.
É verdade que na classe dos treinadores se vive uma podridão de valores morais. É verdade que os treinadores não se defendem uns aos outros. É verdade que muitas vezes são os próprios “treinadores” a não se saberem colocar no lugar do outro. É verdade que existe canibalismo profissional baseado na inveja de quem está fora e vive obcecado por ter a oportunidade entrar... mas eu tenho de ter a capacidade não ser um desses e tenho que defender um colega de profissão quando me revejo no que ele está a passar!
Defender um treinador não é só defender os resultados. É defender a complexidade de uma profissão que ninguém vê por dentro e que toda a gente acha que percebe por fora, ou que faria melhor.
WILSON TEIXEIRA
Treinador de futebol