31/01/2026
Meia Bola e Força II. Cultura Inculta… Sobe o Signo da Margarida no País das Maravilhas.
Portugal produz formação universitária em matéria de desporto, no âmbito da educação, do treino e da gestão, há décadas. O Instituto Nacional de Educação Física foi fundado em 23 de janeiro de 1940. Todavia, antes e depois do 25 de Abril, é difícil identif**ar um padrão consistente de integração, no topo da decisão política, de quadros com formação especializada e trajeto académico no sector. Ao longo de mais de trinta Governos, a tutela do desporto tem sido, com frequência, atribuída por critérios que parecem independentes do conhecimento técnico e cultural acumulado pelas universidades.
Em consequência, o que se observa recorrentemente é a entrada tardia de responsáveis políticos no domínio do desporto, sem curva de aprendizagem minimamente compatível com a complexidade do sector. Pouco depois, instala-se um discurso de opinião abrangente sobre praticamente tudo, incluindo matérias em que a decisão pública exige definição conceptual, escolha de indicadores e critérios de avaliação, uma vez que está em causa despesa financiada por contribuintes.
E, perante um silêncio persistente de muitos profissionais de educação física e desporto saídos das universidades, a política desportiva nacional e as consequentes políticas públicas têm-se tornado terreno fértil para demagogia, para retórica de ocasião e para uma sucessão de prioridades sem diagnóstico. Este padrão ficou exemplarmente expresso no Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo que, sem racionalização explícita do sistema desportivo, consagrou o combate à obesidade infantil como eixo central do discurso de política desportiva, como se a missão do desporto pudesse ser reduzida a uma meta sanitária, desligada da cultura, da estrutura e da cidadania.
Para Bernard Jeu (cf. Le Sport, la mort et la violence), as raízes do desporto moderno remontam aos mais recônditos tempos, quase como se acompanhassem a própria fundação do mundo. O desporto só se compreende plenamente quando é observado como memória cultural, rito social e matriz identitária, isto é, como um fenómeno a que a cultura atribui signif**ado. É por isso que os debates públicos, recorrentes e por vezes ideologicamente carregados, sobre o lugar simbólico de Pierre de Coubertin na narrativa olímpica contemporânea são mais do que folclore. Quando o património histórico é tratado como detalhe dispensável, ou quando se substitui genealogia por marketing ideológico, o que se revela não é elevação ética, é incapacidade cultural. E quando essa incapacidade se instala em estruturas olímpicas e desportivas, o resultado é simples. O Movimento Olímpico, em muitos países, passa a ser conduzido por agentes sem competência demonstrada para sustentar, com rigor, a herança que administram.
O desporto é muito mais do que um conjunto de técnicas no âmbito do treino e da competição, ou do que uma série de procedimentos de ordem logística. A logística, sem um quadro cultural subjacente, não passa de burocracia. Isso percebe-se se alguém tiver paciência para ler centenas de páginas de programas de preparação olímpica e relatórios de missão de Jogos Olímpicos em ciclos recentes, documentos que, muitas vezes, descrevem tarefas, cronogramas e deslocações, mas raramente exibem um modelo, uma teoria de mudança, indicadores verificáveis e critérios de responsabilização.
Quando não se sabe de onde se vem, é impossível compreender onde se está e jamais se será capaz de prospetivar para onde se deve ir.
Continuando na entrevista que o Sr. Secretário de Estado do Desporto deu ao Diário de Notícias, em 22 de janeiro de 2026, o responsável do desporto nacional produziu uma afirmação que representa bem o estado a que a cultura inculta do desporto nacional chegou.
Disse ele: “Temos métricas para perceber a relação entre o praticante de base e a elite. São da ordem de quatro atletas de elite para cada dez mil praticantes de base”.
A frase revela, simplesmente, que, ao contrário do que afirma, não existe compreensão metodológica do que está a ser dito. Uma “métrica” não é um número pronunciado em voz alta. É uma definição operativa que exige, pelo menos, conceito, universo, fonte, método e finalidade. Sem isso, o que se apresenta como evidência não passa de retórica com números.
A dita métrica foi referida em 1973 como hipótese de trabalho, no âmbito dos trabalhos do Conselho da Europa relativos à racionalização das políticas em matéria de desporto, coordenados por Benito Castejón Paz. Bastariam duas operações de divisão para perceber que o rácio 4 por 10 000, do ponto de vista do índice que dele decorre, não passou de uma hipótese heurística, não de um parâmetro científico, nem de um critério normativo. E bastaria acrescentar uma pergunta para o rácio colapsar por si próprio. O que é elite, com que critérios, em que universo estatístico, com que fonte, e com que definição de praticante.
Esse rácio foi utilizado em Espanha (cf. Livro Verde do Desporto Espanhol), a fim de determinar, a olho nu, o valor da elite ideal. Por motivos óbvios, foi sendo abandonado. Um rácio só tem interesse quando garante comparabilidade. Sem comparabilidade, é apenas conversa com números, isto é, uma forma de retórica disfarçada de métrica. Ao tempo, essa comparabilidade era frágil, por razões metodológicas e estruturais que, por economia de paciência do leitor, me dispenso de desenvolver.
Por isso, foi com surpresa que tomámos conhecimento de que o Sr. Secretário de Estado do Desporto avançou com o rácio de 4 por 10 000 sem contraditório jornalístico minimamente competente, do seguinte modo. “Em algumas das nossas modalidades, nós teríamos muita dificuldade em exigir medalhas porque sabemos não existirem dez mil praticantes em grande parte das modalidades”.
A frase é reveladora por duas razões. Primeiro, porque transforma um número histórico e hipotético com mais de cinquenta anos num critério de avaliação política, como se o desporto fosse uma máquina com uma tabela universal de rácios. Segundo, porque usa a inexistência de dez mil praticantes como argumento para reduzir a exigência de resultados, quando o problema sério não é exigir ou não exigir. O problema sério é não se saber o que se está a medir, nem o que se está a comparar, nem o que se pretende racionalizar. E basta avaliar o quadro macro do desenvolvimento estratégico do desporto da UE para se compreender que o rácio não tem qualquer utilidade.
O que não é de estranhar, na medida em que um país que coloca o combate à obesidade infantil no centro do seu discurso desportivo e cujo Secretário de Estado afirma, com candura, que “achamos que os nossos projetos são todos estratégicos”, é um país que não sabe o que quer. E quando não se sabe o que se quer, o destino mais provável é chegar a lado nenhum. (continua)