08/02/2026
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QUANDO O MÉRITO NÃO CHEGA: o abandono do futebol feminino pelo Governo Regional dos Açores (GRA)
O Vitória Clube do Pico da Pedra fez tudo o que lhe era exigido. Criou uma equipa sénior feminina sem qualquer apoio do GRA, competiu, venceu e conquistou, dentro de campo, todos os objetivos desportivos ao seu alcance. Campeãs de São Miguel. Campeãs Regionais dos Açores. Direito desportivo inequívoco a representar a Região nas competições nacionais de futebol feminino.
Apesar deste percurso irrepreensível, o clube foi informado de que não haverá qualquer apoio do GRA para a participação da equipa sénior feminina na Taça de Portugal, no Campeonato Nacional da IV Divisão e na Taça Nacional da Promoção.
A justificação apresentada é meramente burocrática: a ausência de um convite formal por parte da Federação Portuguesa de Futebol ao campeão regional dos Açores. Um argumento que ignora por completo o mérito desportivo conquistado em campo e penaliza um clube e um grupo de atletas por um processo que não controlam e que lhes é totalmente alheio.
Esta posição é tanto mais grave quanto injusta. A IV Divisão Nacional não é o escalão mais baixo do futebol feminino, como foi publicamente afirmado pelo Diretor Regional do Desporto. Os campeonatos de ilha representam o nível de base. A IV Divisão é o primeiro patamar nacional, acima das provas regionais. O Vitória chegou lá por mérito próprio.
Na época passada, a equipa sénior feminina competiu sem qualquer compensação financeira. Não houve apoio para combustíveis, nem compensações pelas faltas ao trabalho resultantes das deslocações ao continente. Todos os encargos logísticos foram suportados pelo clube, com enormes dificuldades, mas com sentido de responsabilidade e compromisso com o projeto.
Importa ainda sublinhar que esta equipa é composta exclusivamente por atletas açorianas. Jovens mulheres da Região Autónoma dos Açores (RAA) que treinam, trabalham e representam os Açores fora da ilha, sem privilégios e sem ajudas.
É importante afirmar, com clareza, que a vinda de equipas do continente para competir na RAA é positiva e desejável. Valoriza as competições, promove a Região, dinamiza a economia local e contribui para o crescimento do desporto regional. O que é incompreensível é que o GRA não reconheça esse mesmo impacto.
O que não é aceitável é que, enquanto o Instituto Português do Desporto e Juventude reconhece e apoia logisticamente a presença de equipas do continente na RAA, o GRA negue apoio a uma equipa açoriana campeã, que precisa de se deslocar ao continente para competir. Esta assimetria não é defensável, nem do ponto de vista desportivo, nem do ponto de vista da equidade territorial.
Mais irónico ainda quando, recentemente, foi afirmado que o Governo não pode tratar os açorianos como portugueses de segunda. A pergunta impõe-se: o que está, afinal, a fazer o GRA ao futebol feminino da RAA?
Este tratamento contrasta de forma chocante com aquilo que se passa no futebol masculino. Enquanto um clube campeão regional feminino é excluído de apoio por uma questão administrativa, assistimos, ano após ano, ao financiamento público de projetos masculinos assentes em investimentos avultados em atletas estrangeiros, muitos dos quais chegam à RAA sem condições dignas de habitabilidade, alimentação adequada ou enquadramento social, realidade amplamente conhecida no meio desportivo.
Há dinheiro público para importar atletas, mas não há apoio para quem é da terra.
Há financiamento para projetos sem sustentabilidade social, mas não há resposta para quem ganha dentro do campo.
Há tolerância para excessos no futebol masculino, mas rigor absoluto quando se trata de futebol feminino.
Importa, contudo, salvaguardar com total justiça o apoio prestado pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, que atribuiu ao clube uma verba ao abrigo da promoção turística do concelho. Esse apoio, que o Vitória reconhece e valoriza, foi e será canalizado para o apoio logístico da equipa sénior feminina, assegurando a presença da Ribeira Grande nas competições nacionais. Ainda assim, importa sublinhar que esta verba deveria servir para criar melhores condições estruturais para o desenvolvimento do futebol feminino e não para suprir uma ausência que compete ao GRA resolver.
Apesar de vários contactos formais, pedidos urgentes de intervenção e exposição detalhada da situação, o Presidente do GRA nunca respondeu. Nem uma palavra. Nem um esclarecimento. Nem um sinal mínimo de respeito institucional por um projeto que honra a RAA.
O futebol feminino não se promove com discursos nem intenções. Promove-se com decisões concretas.
Neste caso, o GRA falhou com o futebol feminino, com o mérito desportivo e com a igualdade de oportunidades.
O Vitória Clube do Pico da Pedra não pede favores.
Exige justiça, coerência e respeito pelo mérito conquistado em campo.