02/08/2026
“Feitiço”, a memória da Volta a Portugal à Vela
(o texto do Jornal de Notícias, 26 Julho 2026)
“Feitiço continua a lançar magia 40 anos depois
Há barcos que envelhecem, mas o Feitiço prefere colecionar histórias. Aos 40 anos, é a embarcação mais antiga da Volta a Portugal à Vela e continua a enfrentar o Atlântico com a mesma personalidade que o tornou num nome incontornável da modalidade. Agora, porém, é uma nova geração da família Serôdio que segura o leme.
José Serôdio Xavier estreou-se este ano na prova que o tio tantas vezes percorreu. Foi ele quem, há quatro décadas, decidiu encomendar ao arquiteto naval Tony Castro um projeto que viria a tornar-se um dos barcos mais emblemáticos da vela portuguesa. "Temos, sem dúvida, o barco mais antigo desta Volta. O meu tio, com seis (nove, rectificação nossa) filhos para criar, pediu ao Tony Castro que lhe desenhasse um barco. Foi assim que nasceu o Feitiço", recordou.
A embarcação tornou-se presença habitual nas grandes regatas nacionais e venceu duas edições da Volta, transportando várias memórias familiares. "Toda a nossa família vive intensamente este barco. Navegar foi o que sempre fizemos juntos e espero que esta Volta também nos traga boas recordações e felicidade", pediu.
Apesar de ser a estreia do neto na prova, a preparação teve pouco de extraordinário. "Bastou a nossa infância toda passada na vela. Isso dá-nos uma grande qualidade, que é não termos medo de nada".
Quatro décadas depois da construção do veleiro, a tecnologia mudou profundamente. Onde predominavam instrumentos tradicionais, hoje basta um telemóvel para conhecer a posição da embarcação. "Em plena regata pegamos no telemóvel para perceber onde estamos. É inacreditável", admitiu.
Na etapa inaugural, marcada pela forte nortada, o Feitiço voltou a provar que a idade nem sempre pesa. "Foi uma regata muito cansativa. Largámos com muito vento e o barco respondeu de forma espetacular. Também não podemos puxar demasiado por ele... temos de pensar nos seus 40 anos", lembrou.”