08/05/2025
É uma vida inteira ligada ao apaixonante mundo do Futebol.
Obrigado Divisão de Honra AF Porto
Conversas D'Honra
Mister Pedro Pontes
Se na semana passada, Pedro Pontes partilhou o seu testemunho como jogador, esta semana, partilha o seu testemunho como treinador.
(Motivo de ter parado na época transata) Única e simplesmente a minha família. Fui pai pela segunda vez em 2023 e decidi em conjunto com a minha esposa que teria de estar mais presente nesta fase em todas as vertentes. Tenho uma família maravilhosa e quero que assim continue. A minha esposa é o grande suporte para que possa prosseguir com esta minha grande paixão que é o futebol, sem ela não seria possível e portanto ficou decidido que teria de parar de treinar durante algum tempo para passar mais tempo em casa com ela e com os meus filhos. O tempo não volta para trás, só quem anda nesta paixão pós horário laboral é que vai entender, perdemos muitas coisas da nossa vida por causa do futebol. Reconheço que me custou muito inicialmente, mas também assumo que deu para perceber que existem coisas muito mais importantes que o futebol. Foi uma fase muito importante, hoje tenho uma perspetiva diferente, sou muito mais forte.
Esta época regressa ao Folgosa da Maia FC, um clube que já bem conhece. Como surgiu esta oportunidade? A oportunidade surgiu como todas as outras que tive até hoje. Orgulho-me de até ao dia de hoje o primeiro passo ter sido sempre dado pelos clubes, sou muito grato por isso, é o reconhecimento do meu trabalho. Quanto ao Folgosa da Maia FC, não foi diferente. Os responsáveis do clube entraram em contacto comigo e perguntaram se eu estava disponível. Acontece que neste caso a questão tem outros contornos. É um clube que me deu notoriedade e que me ajudou a construir a carreira de treinador que tenho aos dias de hoje. Aliado a isso, tem a questão geográfica e a proximidade da minha área de residência, que nesta fase não teve um peso enorme, foi decisivo. Por último a resposta que me deram á pergunta que faço sempre a quem me pretende contratar: "Porquê eu?" A resposta foi condizente com as minhas expectativas, portanto seguimos viagem até que alguma das partes entenda que não faz mais sentido continuar juntos.
Qual a época mais difícil para si e porquê? É uma pergunta simples, mas difícil de responder. No caso do treinador todas as épocas são difíceis, nós vivemos muito dependentes do resultado, acho que a pergunta poderia ser qual o clube mais difícil. Todos os clubes querem ganhar, mas nem todos dão as mesmas condições para se poder ganhar, e aí é que residem as divergências na maioria dos casos. No entanto respondendo à questão, creio que a temporada mais difícil que tive foi em 2012/2013 no AC Bougadense, andámos sempre nos últimos 4 lugares da classificação, todos os jogos eram uma batalha incrível de luta hercúlea pelos pontos. A manutenção só foi alcançada na última jornada do campeonato e com uma derrota! Entramos na última jornada com mais 1 ponto, mas ambas as equipas perderam... Até hoje não sei se tive um pico de emoção de alegria ou de alívio... valeu como um título!
Creio que o meu ponto alto foi nas épocas 2015/2016 e 2016/2017 com a obtenção de 2 subidas de divisão consecutivas que culminaram com a primeira presença de sempre do Folgosa da Maia FC na divisão mais alta da AFP (Pro-Nacional) em 2017/2018 e uma 1/2 final da Taça AF Porto em 2016/2017.
Creio que a maioria acha que são os treinadores que escolhem os projetos, quando o que acontece é precisamente o contrário, os projetos é que escolhem os treinadores!! Em quase todos os casos, temos de decidir se vamos numa questão de horas ou minutos, a decisão é na grande maioria das vezes por instinto, se ferve ou não ferve o sangue, se estás motivado ou não. Treinador nunca pode dizer nunca!
Eu como treinador acho sempre atrativo o difícil, o que nunca foi feito e a roçar o improvável. Reconheço até que já me coloquei em situações complicadas derivadas disso, mas tenho uma grande autoconfiança e acredito muito no que faço. No entanto já levei algumas lições. Nem sempre o excelente trabalho do treinador se reflete em resultados positivos, podes ser o melhor treinador do mundo, com a melhor liderança e com os melhores métodos, mas se não tiveres bons jogadores e uma estrutura diretiva sólida, torna-se muito, mas muito difícil.
Durante estes anos de treinador já passei por situações incríveis e caricatas, desde ter responsáveis do clube a querer fazer coaching comigo utilizando a expressão "do more with less" quando o objetivo era subir de divisão. Isto numa semana, porque na seguinte já era apostar na formação. Ou ir para a comunicação social dizer que a aposta na equipa foi muito alta (e na realidade o investimento mal dava para a manutenção). Ou então ter várias unidades de treino no microciclo com 1/4 de campo para treinar (Seniores) e exigir que a equipa praticasse um bom futebol e almejasse a subida de divisão. Ir para treino com 6 bolas porque não havia dinheiro para comprar mais e que as outras tinham de estar guardadas para haver bolas para jogar ao Domingo. Ser despedido de um clube sem perder um único jogo, porque não chegava empatar ou ganhar, tinha de se golear! Tudo isto faz parte de se ser treinador, mas de uma coisa eu tenho a certeza absoluta.
Não me arrependo de uma única decisão que tomei no que diz respeito a aceitar projetos, pois naquele momento achei a 100% que era aquilo que queria.
O melhor conselho que posso dar é que acreditem muito no trabalho que desenvolvem, não deixem que ninguém vos diga que não é possível fazer isto ou aquilo. Ser treinador é uma das funções mais difíceis e ao mesmo tempo mais desafiantes do mundo. Aprendes a viver as vitórias de forma fugaz entregando o mérito ao coletivo e as derrotas de forma dolorosa com o peso solitário da responsabilidade.
A melhor característica que um treinador pode ter é a capacidade de agregar e gerar confiança naqueles que o rodeiam, dizer a verdade e pensar sempre com a sua própria cabeça. Ter independência de pensamento e de ação é obrigatório para se ter um bom desempenho como treinador. Por fim dizer o que digo sempre em relação ao que é ser treinador. Ser treinador é ter a arte de convencer. 80% de ser treinador é tudo menos futebol, é ser capaz de fazer um conjunto de homens seguirem todos o mesmo caminho em busca de um único objetivo coletivo, vencer!
Agradeço a oportunidade de expor um pouco do meu trajeto até hoje. Espero continuar a trilhar o meu caminho neste mundo maravilhoso que é futebol, quando ao futuro veremos o que trará. Continuo até hoje com o entusiasmo daquele menino de 8 anos de idade que puseram pela primeira vez num campo pelado para jogar à bola. Continuo apaixonado pelo futebol e manifesto sempre muito respeito pelo Desporto em geral.