17/09/2026
🚴♂️ E SE O PROBLEMA DO CICLISMO PORTUGUÊS NÃO FOR APENAS A FALTA DE DINHEIRO?
Quando se fala no futuro do ciclismo português, há uma frase que aparece constantemente:
“É preciso apostar mais nos jovens.”
E outra:
“É preciso mais dinheiro, mais apoios e mais patrocinadores.”
E aqui não vale a pena fugir à realidade: sem dinheiro é muito difícil construir projetos fortes, desenvolver jovens talentos e criar estruturas capazes de competir ao mais alto nível.
Mas há uma pergunta que, na minha opinião, merece ser feita:
SERÁ QUE O CICLISMO PORTUGUÊS ESTÁ A PROCURAR OS PATROCÍNIOS DA FORMA CERTA?
Não estou a dizer que as equipas não procuram patrocinadores.
Estou a questionar a forma como o produto “ciclismo” é apresentado às empresas.
Porque uma equipa não deveria chegar a uma empresa apenas para dizer:
👉 “Precisamos de X euros para ter orçamento.”
Deveria conseguir explicar:
👉 “Se investir X euros connosco, é isto que a sua empresa pode receber em troca.”
E aqui pode estar uma das grandes oportunidades para o ciclismo português.
💰 O PATROCÍNIO TEM DE SER VISTO COMO UM INVESTIMENTO
Imaginemos uma empresa portuguesa de construção que pretende crescer internacionalmente.
Está a olhar para mercados como França, Bélgica, Luxemburgo ou Países Baixos.
Uma equipa portuguesa que participe regularmente em provas nesses mercados pode apresentar uma proposta completamente diferente:
“Durante dois anos, a sua marca estará associada à nossa equipa. Vamos competir nestes países, teremos presença nas redes sociais, imprensa especializada, televisão, fotografias, conteúdos digitais e contacto direto com adeptos. O seu nome vai circular nesses mercados.”
Isto não significa garantir vendas.
Mas significa criar exposição e associação de marca.
E o mesmo pode funcionar no sentido contrário.
Uma empresa estrangeira que queira entrar em Portugal pode encontrar numa equipa portuguesa uma plataforma para começar a tornar o seu nome conhecido no mercado nacional.
É aqui que o ciclismo pode ter algo muito interessante para oferecer.
🌴 E NO ALGARVE EXISTE UM EXEMPLO QUE FAZ TODO O SENTIDO
Pensemos nas equipas algarvias.
O Clube de Ciclismo de Tavira tem uma história particularmente interessante neste campo.
Em 2010, a equipa competiu como Palmeiras Resort – Prio. A associação entre uma equipa algarvia, uma empresa ligada à energia e um empreendimento turístico da região mostrava precisamente como diferentes setores podiam encontrar no ciclismo uma plataforma de divulgação.
E existe aqui uma oportunidade que, na minha opinião, continua a fazer sentido.
HOTÉIS E TURISMO.
O Algarve vive do turismo.
E existem dezenas de grandes hotéis, resorts e empresas turísticas na região que procuram chegar precisamente aos públicos que acompanham o ciclismo.
Agora pensem na Volta ao Algarve.
É uma das principais provas do calendário português e tem transmissão televisiva internacional, incluindo através da Eurosport.
As equipas portuguesas participam na prova.
Milhares de pessoas acompanham.
E uma equipa algarvia poderia chegar a uma grande cadeia hoteleira e dizer:
“Nós não lhe estamos a pedir apenas dinheiro para correr. Estamos a propor-lhe que o seu hotel seja associado a uma equipa que vai competir diante de um público português e internacional.”
Um britânico que acompanha a Volta ao Algarve pode ver repetidamente:
“Hotel X – Tavira”
ou
“Resort X – Algarve”
no nome de uma equipa.
Talvez não reserve um quarto no dia seguinte.
Mas quando começar a planear umas férias no Algarve, o nome pode já lhe ser familiar.
É precisamente esse tipo de associação que um patrocinador deve procurar.
E não é preciso inventar um cenário teórico.
O próprio Tavira continua hoje a trabalhar com parceiros ligados ao turismo: nos últimos anos a equipa teve denominações como Atum General/Tavira/Maria Nova Hotel e AP Hotels & Resorts/Tavira/SC Farense. Em 2026, passou a competir como Team Tavira/Crédito Agrícola.
Ou seja, o conceito já existe.
Talvez seja preciso levá-lo ainda mais longe.
🌍 NÃO É PRECISO QUE O PATROCINADOR SEJA UMA EMPRESA DE BICICLETAS
E talvez esta seja uma das maiores mudanças de mentalidade necessárias.
O dono de uma empresa pode não andar de bicicleta.
Pode nem gostar particularmente de ciclismo.
E mesmo assim a empresa pode ter razões para investir numa equipa.
Construção.
Turismo.
Tecnologia.
Banca.
Seguros.
Alimentação.
Transportes.
Energia.
Indústria.
Empresas que procuram novos mercados.
Empresas que querem reforçar a sua imagem.
Empresas que procuram associar-se a valores como desempenho, trabalho de equipa, saúde, sustentabilidade ou internacionalização.
O ciclismo pode ser uma plataforma de comunicação para todas elas.
🧠 É PRECISO PENSAR FORA DA CAIXA
Talvez o ciclismo português precise de deixar de procurar apenas “um apaixonado por ciclismo com dinheiro suficiente para financiar uma equipa”.
Talvez seja necessário procurar empresas que vejam o ciclismo como uma ferramenta de negócio.
Uma equipa portuguesa que consiga competir internacionalmente pode vender muito mais do que camisolas.
Pode vender:
📺 exposição mediática
📱 conteúdo digital
🌍 internacionalização
🤝 relacionamento empresarial
👥 contacto com consumidores
🏆 associação a resultados desportivos
🇵🇹 promoção de uma marca portuguesa no estrangeiro
E isso pode ser transformado num verdadeiro produto comercial.
🔵 E OS GRANDES CLUBES DE FUTEBOL?
Há anos que se fala:
“Porque é que Benfica, FC Porto ou Sporting não voltam a apostar numa equipa de ciclismo?”
É uma discussão legítima.
Mas será que colocar simplesmente o nome de um grande clube numa equipa resolve o problema?
Não necessariamente.
O caso W52-FC Porto mostrou como a associação entre uma equipa de ciclismo e uma grande marca também pode trazer riscos reputacionais quando surgem problemas graves.
A operação “Prova Limpa” esteve na origem de um processo relacionado com doping no ciclismo português, envolvendo elementos ligados à antiga estrutura W52-FC Porto.
Isto não significa que os grandes clubes devam ficar afastados do ciclismo.
Significa apenas que qualquer grande marca que entre no ciclismo precisa de perceber o risco e, sobretudo, aquilo que está a comprar.
🚴♂️ O FUTURO DOS JOVENS COMEÇA AQUI
Se queremos mais investimento na formação, precisamos de equipas financeiramente mais fortes.
Se queremos equipas mais fortes, precisamos de patrocinadores.
E se queremos patrocinadores maiores, talvez seja necessário mostrar às empresas que o ciclismo não é apenas uma despesa.
É um produto.
É uma plataforma.
É comunicação.
É exposição.
É uma oportunidade de negócio.
O ciclismo português evoluiu enormemente nas últimas décadas.
Hoje temos atletas portugueses nas maiores equipas do mundo, provas portuguesas com capacidade de atrair atenção internacional e uma modalidade com uma história e uma identidade muito fortes no nosso país.
Por isso, talvez esteja na altura de as equipas portuguesas começarem a bater à porta de empresas maiores.
Não com:
“Precisamos de dinheiro para correr.”
Mas sim com:
“Temos um produto. Temos atletas. Temos calendário. Temos público. Temos visibilidade. E temos um plano para fazer a sua marca crescer connosco.”
Porque esperar pelo próximo milionário apaixonado por bicicletas pode não ser uma estratégia.
Ir à procura de empresas que consigam ganhar dinheiro com o ciclismo pode ser.
E talvez seja aqui que esteja uma das grandes mudanças que o ciclismo português precisa de fazer.
💬 E vocês, acham que uma das grandes falhas do ciclismo português está precisamente na forma como se procuram e apresentam os patrocínios?
As equipas portuguesas estão a vender bem o seu produto às empresas ou continuam demasiado focadas em pedir dinheiro para sobreviver?
👇 Queremos saber a vossa opinião.