31/07/2026
Primeiro Lance
Há textos que resistem ao tempo. Publicado no primeiro número da revista Xeque Mate, em novembro de 1954, o editorial "Primeiro Lance" é um testemunho surpreendente da realidade do xadrez português da época e, simultaneamente, uma reflexão que continua a ecoar nos dias de hoje. Escrito há quase 72 anos, Joaquim Durão (um dos melhores jogadores portugueses de todos os tempos) identif**a, com rara lucidez e visão, problemas que ainda hoje desafiam o desenvolvimento do xadrez: a falta de dirigentes preparados e empenhados, a dificuldade em valorizar e reter talentos, a tendência para procurar soluções apenas no financiamento e a necessidade de uma comunicação forte e agregadora. Mais do que um documento histórico, este texto revela-se uma reflexão intemporal sobre os desafios do xadrez nacional e convida-nos a pensar até que ponto evoluímos — ou continuamos a enfrentar as mesmas questões.
O xadrez nacional, sem dúvida alguma, atravessa uma crise que, decerto, é a mesma de há 5, 10, 15, 20, 30 anos. Os lustros têm passado, os xadrezistas habilidosos têm aparecido em todas as épocas, deixam um rasto das suas qualidades na vida escaquística nacional e depois, quase misteriosamente, desaparecem.
Às vezes ressurgem, mas depressa, e sem motivo aparente, voltam às trevas.
— Ah, quantos nomes o xadrez nacional tem perdido, numa deserção verdadeiramente incompreensível!
Eng. Eduardo Pellen, dr. Fernando Encarnação, José Dores, eng. Raúl Quaresma Rosa, eng. Helder Sardinha, Masoni da Costa, eng. Correia Neves, Aristides Cunha, Lucílio Ventura, Henrique Mantero, eng. Virgílio Costa, Morais David, Marcelo Soares, José Castro e Melo, Fernando Fernandes, Manuel Sampaio, dr. Alves Valadares, Pereira da Costa, dr. Israel Ferreira, Cunha Serra, dr. Adelino Galhardo, Morais Sarmento, Manuel Robalo, Branco de Almeida, eng. Jorge Gonçalves, Simões Fonseca, dr. Tavares Rocha, arq. Ernani Nunes, etc., etc. Uns, consagrados; outros já próximos da consagração ou que revelavam qualidades para a atingir.
— Porque terão eles abandonado o nobre jogo que tantas horas de prazer lhes proporcionou?
Houve variados motivos: profissionais, de doença, fixação de residência em meios sem movimento escaquístico, desinteresse.
Se bem que aceitemos os primeiros, não podemos deixar de estranhar o último. — Por que se terão desinteressado? Por saturação, por desinteligências? Pode parecer isso, mas se rebuscarmos bem o motivo, chegaremos à triste conclusão de que a causa de tudo está na crise, na velha crise com aspecto crónico.
Ora, pelo que acima f**a dito, a crise parece não ser de valores, de matéria prima.
— Quem tem o dever de estimular, entusiasmar, ajudar, amparar, esses valores?
— Quem, senão os dirigentes?
Sem dúvida de qualquer espécie, a grande causa da crise reside nos dirigentes, na falta acentuada de indivíduos capacitados, que preencham as lacunas que quase todas as direcções dos organismos de xadrez apresentam, de uma vintena de anos a esta parte. Ao lado do elemento trabalhador tem-se sentado o indiferente que nada adianta.
E sem dúvida, também de espécie alguma, afirmaremos que nos vinte anos referidos bastantes têm sido os elementos trabalhadores que surgiram.
Há quem julgue, mesmo entre os dirigentes actuais, que a crise seria debelada com dinheiro — dinheiro para isto, dinheiro para aquilo, dinheiro para aqueloutro.
Embora a abundância de dinheiro fosse uma grande ajuda, a verdade é que só por si pouco adiantava.
O estímulo, o entusiasmo, a ajuda e o amparo que faltaram no momento próprio aos valores que abandonaram a causa do xadrez não eram de ordem material, não se podiam comprar. A solução do problema, portanto, não está no dinheiro.
O desejado só se conseguirá no dia em que todos os dirigentes desempenhem devidamente as suas funções enquanto ocuparem os cargos para que foram eleitos.
Perante este estado de coisas, qualquer que fosse a altura em que XEQUE MATE surgisse, a sua presença seria útil. Há sete anos que Portugal não tem uma publicação escaquística periódica. Esta falta, na verdade, também tem contribuído para a existência da crise. Temos consciência, portanto, da nossa utilidade.
Mas, infelizmente, sem a ajuda dos xadrezistas portugueses que se espalham pelos cinco continentes, a nossa existência não é possível. Pedimos pois o apoio de quem nos está a ler, para que esta publicação não tenha a sorte desafortunada de outras tentativas.
Enquanto existirmos, salvo as excepções naturais, colocaremos acima de tudo e de todos o xadrez nacional — entendendo por xadrez nacional não só o que se pratica na Metrópole, mas também nas Ilhas e no Ultramar.
Por ele pugnaremos até ao limite das nossas forças, a fim de que um dia venha a ocupar o lugar a que tem jus na vida nacional.
Joaquim Durão, in XEQUE MATE nº 1, novembro 1954