20/05/2026
Caro Tiago,
Há despedidas que custam mais do que outras. Esta custa-nos muito.
Todos sabíamos que este dia acabaria por chegar, mas, no fundo, imaginávamos outro desfecho. Imaginávamos ver-te sair da Choupana levado para os maiores palcos do futebol, depois de uma época histórica, de uma caminhada épica e de um trabalho que devolveu orgulho a um povo inteiro. Achávamos que seria o futebol a reconhecer-te como merecias. Infelizmente, não foi assim. E isso dói-nos.
Mas há uma coisa que ninguém poderá apagar: aquilo que deixaste no Clube Desportivo Nacional e em todos nós.
Quando chegaste, estávamos perdidos. Vindos de uma das épocas mais negras da nossa história recente, mergulhados no desânimo, cansados de cair, cansados de promessas, cansados de olhar para o nosso clube sem reconhecer nele a alma competitiva que sempre o definiu. O teu nome apareceu e, sejamos honestos, para muitos eras apenas “o treinador que passou pelo Canelas” ou “o homem que eliminou o Sporting pelo Varzim”. Pouco mais. A esperança era pouca. O pessimismo era enorme.
E depois veio o derby perdido em casa logo na primeira jornada. Parecia o início de mais um capítulo de sofrimento. Mas não era.
Porque havia qualquer coisa diferente naquela equipa. Algo que não se explica só com tática, treinos ou discurso. Havia alma. Havia compromisso. Havia união. Havia uma identidade que o Nacional já não tinha há demasiado tempo.
E nós, Armada Alvinegra, percebemos isso ainda antes de a bola rolar.
Dois dias antes desse primeiro jogo, estávamos na nossa sala a preparar material. De repente, bates à porta e entras. Sem cerimónias. Sem medos. Um desconhecido para quase todos nós entrou naquela sala e falou como se já sentisse o Nacional há décadas. Apertaste a mão de cada um, olhaste-nos nos olhos e deixaste-nos palavras que nunca iremos esquecer.
Naquele momento percebemos tudo.
Percebemos que tinhas chegado para mudar mentalidades. Para devolver garra, exigência e ambição a um clube que se tinha habituado ao conformismo. Pegaste num Nacional ferido, desacreditado e quase resignado ao sobe e desce… e fizeste-nos voltar a acreditar.
E há pessoas que passam pelos clubes.
Tu és das raras pessoas que mudam um clube.
Mudaste a equipa dentro de campo, claro. Criaste uma equipa competitiva, séria, organizada e com identidade. Levaste-nos a uma subida de divisão que ficará eternamente gravada na memória de todos os nacionalistas. Fizeste da Choupana um lugar onde voltámos a sentir orgulho.
Mas a tua maior obra foi além das quatro linhas.
Mudaste a ligação entre equipa e adeptos. Aproximaste o clube da sua massa associativa. Fizeste-nos sentir importantes novamente. Fizeste-nos sentir parte da caminhada. E isso, Mister, não se ensina em cursos nem aparece em estatísticas.
Nós, Armada Alvinegra, começámos em 2014. Éramos apenas quatro miúdos estudantes universitários no continente, movidos apenas pelo amor ao Nacional. Crescemos com sacrifício, noites sem dormir, quilómetros, viagens intermináveis, muitas vezes contra tudo e contra todos. Durante anos lutámos para mostrar que a nossa voz, a nossa presença e a nossa dedicação também eram importantes para o clube.
E foste tu o primeiro treinador que verdadeiramente percebeu isso.
Foste tu quem nos valorizou não apenas como adeptos, mas como parte da identidade do Nacional. Fizeste-nos sentir vistos. Respeitados. Importantes. Percebeste o impacto da nossa presença tanto na Choupana como em cada deslocação fora. E mais do que isso: fizeste também o próprio clube perceber a força que a Armada tinha e podia continuar a ter no dia a dia da equipa.
Hoje já não somos quatro.
Hoje movemos 100, 200 pessoas.
Hoje existe uma união, uma força e um sentimento coletivo que também nasceram da forma como nos trataste, da proximidade que criaste e do carinho genuíno que sempre tiveste por nós.
E venha quem vier no futuro, isso nunca esqueceremos.
Não precisamos de falar de Tondela, das vitórias épicas ou dos momentos inesquecíveis. Isso ficará para sempre guardado na História. O mais importante é aquilo que nos deixaste por dentro: a crença. A chama. O orgulho de voltar a dizer, sem hesitação, que somos Nacional.
O futuro seguirá o seu caminho. O futebol raramente pára. Mas há marcas que ficam eternamente gravadas.
E a tua ficou.
Esta será sempre a tua casa.
Porque não sais daqui apenas como um treinador que venceu.
Sais daqui como um homem que levantou um clube inteiro do chão.
Como um líder que uniu adeptos, cidade, balneário e bancada.
Como alguém que nos fez voltar a acreditar.
Mister Tiago Margarido,
não sais do Nacional apenas como um grande treinador.
Sais como um GIGANTE da nossa História.
Obrigado por tudo.
Obrigado pelas memórias.
Obrigado pela coragem.
Obrigado pela garra.
Obrigado por nos devolveres o orgulho de ser Nacional.
A tua obra viverá muito para além do futebol.
Armada Alvinegra