17/06/2025
MADALENA COSTA: UMA DAS PESSOAS MAIS LIVRES DESTE PAÍS
A biologia e a física não sabem nada sobre a Ilha da Madeira — pelo menos sobre duas pessoas que de lá vieram. Um corre contra a Biologia; a outra voa contra a Física.
Como Ronaldo, Madalena Costa é uma das melhores da história. Como Ronaldo, nasceu na Madeira. Ambos parecem anulações da ciência, formidáveis equívocos. De Ronaldo, já todos conhecem a história. Vamos conhecer a da Madalena.
Na patinagem, é bicampeã do mundo. Tricampeã da Europa. Venceu a World Cup quatro vezes. Tem oito títulos nacionais e regionais. Tem 16 anos. Começou a patinar aos quatro. A mãe é a treinadora. Os dois irmãos mais novos também patinam — e são dos bons. Isto não é uma história de superação. É uma história de construção metódica, de repetição, de obsessão organizada.
Pessoas como a Madalena, como o Ronaldo, desmentem, com o corpo, com o gesto, com os troféus empilhados em prateleiras domésticas, a ideia de que tudo é aleatório. Não é. Ela é o resultado de uma arquitectura afectiva e disciplinar quase perfeita: família, obsessão, contexto. Um microcosmos fechado que fabrica excelência. Sem folclore, sem espectáculo, sem desistências.
Ela cita os ídolos como se fosse a coisa mais natural do mundo: Cristiano Ronaldo (claro), Ayrton Senna, Malala, Rayssa Leal. Um futebolista maníaco do treino, um piloto eterno, uma sobrevivente política, uma skater que sorri enquanto voa. Escolheu bem: isto é tudo gente que aguenta.
Ela aguenta: a dor, a rotina, a exigência da mãe, a solidão do sucesso precoce, a incompreensão dos colegas, a indiferença de um país que se comove com reality shows, mas ignora atletas silenciosas. Aguenta os dias iguais, os treinos duros, o peso da vitória — que é sempre mais pesado do que parece.
Madalena é, provavelmente, uma das pessoas mais livres deste país. Não no sentido poético da liberdade, mas no sentido prático: ela sabe o que quer, sabe o que faz. E sabe porquê. Aos 16 anos, isso é um escândalo. Um insulto aos adultos perdidos que não sabem sequer o que odiar.
Madalena é uma máquina de beleza, uma evidência de que, às vezes, os deuses concedem talento. Há quem o use até ao fim. Ela e Ronaldo que o digam. Por favor, continuem a dizer.