19/06/2025
AO PINTOR DA MINHA RUA
Na varanda da minha prisão, escrevi poemas...
Entre os aloés e a solidão do muro,
O copo cheio era esvaziado no ápice das horas.
Muitas tardes e noites ali foram passadas...
Na fuga do interior de um espaço vazio.
Em frente, o único cenário era a copa densa das árvores,
E no vislumbre....uma janela, de onde emergia uma figura de cabelos brancos,
Que passava numa tela, traços enérgicos.
Perguntei-me várias vezes o que a tela continha?!
Tamanha era a doação de tempo.
A clausura acabou.
Tinha sido longa, amarga....eu, comigo mesma.
Agarrei o trabalho, como um náufrago,
Que depois da tempestade, f**a á deriva,
Com a sua única tábua de salvação.
Destroços de um barco que sulcava oceanos!
Muitos meses passaram...
A varanda, não mais convidava no frio do Inverno.
Até que um dia, por detrás da nudez das árvores...
Vislumbrei aquela tela gigante!!
Uns olhos castanhos e vazios, emergiam dela,
Uns lábios contraídos, apertavam palavras.
Nesse dia chorei...
Porque o olhar cabisbaixo, para o meu caderno de poemas,
Foi elevado, pelo meu vizinho pintor, para o longínquo horizonte.
Que apesar de incerto,
Só a mim pertencia!
Com gratidão, devolvo-lhe com estas palavras,
A mensagem que me enviou através dos seus traços....
NUNCA ESTAMOS SÓZINHOS!
Por Cecília Pereira