28/01/2026
“Pedra, Papel ou Tesoura?”: Evento - "Million Dollar 1 Point Slam"
Foi mais uma demonstração de que o Ténis profissional é gerido, em primeiro lugar, com uma lógica de espectáculo de entretenimento desportivo, que não protege nem defende os reais interesses dos jogadores no seu todo, enquanto classe profissional que são.
Gosto bastante da cultura de Atividade Física e Desportiva existente Austrália, mas neste caso concreto não posso admirar esta iniciativa que a organização do Open da Austrália optou por implementar, pois fomenta algo com o qual não considero contribuir para o real desenvolvimento do nosso desporto, no que à qualidade das condições globais em que todos os tenistas profissionais desenvolvem a sua atividade diz respeito.
Este evento estreou-se em 2025, com um prémio de apenas 60 mil dólares australianos, 29,400 mil euros, tendo na altura atraído pouca publicidade.
Este ano (2026) ofereceu um prémio de 1 milhão de dólares australianos (cerca de 490 mil euros).
Realizou-se de 12 a 14 Janeiro, antes do sorteio do QP do AO, na mítica Rod Laver Arena.
Disputou-se num quadro de 64 de eliminatória direta , com 48 jogadores, homens e mulheres.
24 deles eram profissionais (entre eles os nº1 e nº2 ATP Carlos Alcaraz e Jannik Sinner).
8 deles eram amadores que se apuraram em 8 provas locais integradas neste evento, que se realizaram em 2025 por todo o território australiano (cada vencedor ganhou 50 mil dólares australianos).
8 deles foram através de WC, entregues a personalidades e celebridades.
8 deles foram apurados através de um torneio de qualificação por eliminação direta, que se realizou nos dias 12 e 13 de Janeiro, que incluía espectadores do AO.
Foram disponibilizados bilhete para assistir a este evento a partir de 29 dólares.
Formato competitivo: cada encontro é disputado através de 1 único ponto; quem perde é eliminado, quem ganha avança no quadro; é utilizado o sistema de sorteio de “pedra, papel ou tesoura” para escolher quem serve; os profissionais têm direito a 1 serviço e os amadores têm direito a 2.
Segundo o Diretor do AO, Craig Tiley, “a essência deste formato capta exactamente aquilo que era desejado pela organização: juntar diferentes tipos de pessoas através do Ténis de uma forma entusiástica e inclusiva”.
Ora bem, este GS provou, mais uma vez, a “máquina” comercial gigante que uma prova de Grand Slam é, e a facilidade que tem em gerar mais e mais receita.
Mas então … onde entra a função da ITF na regulação desta distribuição implementada pelos circuitos profissionais e na proteção de TODOS os jogadores?
Queremos um Desporto - que tem mais de 1,2 biliões de fãs; cerca de 87 milhões de praticantes; 210 federações nacionais (das quais 100 têm jogadores com ranking ATP e 67 com ranking WTA); mais de 8 mil jogadores profissionais (masculinos, femininos, ITF, ATP e WTA); largas centenas de provas internacionais – que distribua a riqueza que consegue gerar, de forma a que apenas cerca de 2% dos seus jogadores profissionais vivam de uma forma economicamente confortável e que apenas cerca de 6% consigam auferir proveitos que fazem pelo menos face à gigante estrutura de despesas que têm de suportar anualmente para poderem competir, OU QUEREMOS UM DESPORTO ONDE O MODELO DE COMPETIÇÃO PROFISSIONAL PERMITA, A TODOS AQUELES QUE CONSEGUEM TER NÍVEL PARA INTEGRAR ESTE CONTEXTO POSSAM, PELO MENOS, VIVER DIGNAMENTE DA SUA ATIVIDADE PROFISSIONAL, COM A DEVIDA PROTEÇÃO JURÍDICA, LABORAL E ECONÓMICA?
Exemplo: só na nossa Liga Profissional de Futebol temos mais de 400 jogadores a ganhar salários líquidos muito simpáticos, bastante acima dos patamares de conforto e segurança médios. No Ténis, a nível mundial, um jogador que se encontre (e consiga manter-se consistentemente) num ranking 200/300 ATP (o principal circuito profissional) não consegue viver com o mínimo de estabilidade e segurança, face ao investimento que a larga maioria tem de fazer.
Sugestão simples e evidente: Ligas Nacionais – Ligas Continentais – Liga Mundial. Restringir o nº de provas e de jogadores profissionais em cada país. Melhorar as condições laborais de TODOS aqueles que são profissionais.
Num Grand Slam, onde o prize Money total é superior a 50 milhões de dólares, distribuídos por mais de 500 jogadores, quem perde na 1ªR do Quali ganha apenas 0,88% do valor que o vencedor do torneio ganha, e quem perde na 1ªR do QP ganha apenas 3,58% face ao vencedor. Não seria mais justo e sustentável, que as diferenças percentuais distribuídas fossem muito menores? Não será suficientemente atrativo para um jogador profissional ganhar por exemplo 200 ou 300 mil dólares em 2 semanas de trabalho, em vez dos quase 3 milhões que ganham?
Prize Money acumulado do atual nº1 ATP (Carlos Alcaraz): 60,032,046 milhões de dólares.
Prize Money acumulado de um dos atuais últimos classificados ATP (Athara Sharma): 9,811 mil dólares.
Ou seja, o último classificado do ranking ATP acumulou 0,016% do valor acumulado pelo nº1 do ranking. Em quantos desportos isto acontece?
É esta dinâmica existente entre os pontos contabilizados para o ranking e o prize money que se aufere, a mais justa e interessante?
Pedra, papel ou tesoura …
Tiago Salgueiro
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