28/07/2026
A Lenda da fraga do amor eterno.
Há muitos séculos, quando as fadas ainda dançavam ao luar, os rios cantavam
e os deuses caminhavam entre os homens,
existiam três antigos povos que viviam nas serras e vales.
Os Covidus habitavam as montanhas do nascente. Eram guerreiros destemidos,
caçadores exímios e defensores da sua terra.
Do outro lado de um bosque encantado
e de um rio de águas cristalinas viviam os Vieiros, um povo igualmente forte,
conhecido pela fertilidade das suas terras
e pela coragem dos seus homens.
Entre ambos existia uma rivalidade tão antiga que ninguém já sabia como tinha começado.
No meio dessa história nasceu "Acácia"
a mais bela jovem dos Vieiros.
Diziam que os seus cabelos tinham o brilho do sol e que os seus olhos refletiam o céu de primavera.
Era a filha mais nova do chefe da aldeia.
Do outro lado do rio vivia Nadus
O filho mais novo do chefe dos Covidus,
um jovem valente, de coração puro e espírito livre.
Numa manhã de verão, Acácia entrou no bosque para colher frutos silvestres.
Ao aproximar-se da margem do rio, escorregou numa pedra coberta de musgo
e foi arrastada pela corrente de água.
Nadus que se encontrava por perto
ouviu-a gritar.
Sem hesitar, lançou-se às águas e conseguiu salvá-la.
Foi nesse momento enquanto ele a puxava para a berma que os seus olhares se encontraram pela primeira vez...
E algo muito maior do que qualquer rivalidade entre povos , nasceu entre eles.
Passaram a encontrar-se em segredo, sempre junto ao rio onde o destino os unia .
Cada encontro fortalecia um amor
que parecia escrito pelas próprias fadas.
Mas o segredo acabou por ser descoberto.
Os chefes dos dois povos não viam com bom olhom esse romance e proibiram qualquer contacto entre eles.
Ambos tinham já casamentos prometidos.
Escolhidos para fortalecer alianças entre famílias importantes.
Mas mesmo proibidos, continuaram a encontrar-se às escondidas.
Até que, numa noite iluminada apenas pela lua, decidiram fugir.
Atravessaram o bosque encantado,
cruzaram montanhas e chegaram à distante povoação de Searus,
um povo pacífico que acreditava que nenhum amor deveria ser condenado.
Os habitantes acolheram-nos como filhos.
Durante algum tempo conheceram
finalmente a felicidade.
Mas a paz não durou.
Quando os Covidus e os Vieiros descobriram onde os jovens se escondiam, esqueceram por momentos a rivalidade entre si e uniram-se num único propósito:
levá-los de volta.
Declararam guerra a Searus.
Os anciões da aldeia, receando a morte de muitos inocentes, lembraram-se de uma antiga lenda.
Nas montanhas existia o misterioso
Castelo das Pedras, uma gigantesca muralha de rocha onde habitava" Jord"
Deusa das Pedras e da terra, um ser tão antigo e poderoso como o próprio mundo.
Os jovens partiram até lá.
Ajoelharam-se diante da deusa
e imploraram que salvasse o seu amor
e o povo que os tinha protegido.
Jord permaneceu em silêncio durante muito tempo.
Por fim respondeu:
— Existe apenas uma forma
de ninguém vos separar... para sempre .
Ser parte do meu reino...
Aceitando o destino de mãos dadas,
porque outro não deixaria ambos juntos.
E em profunda humildade segurando as suas mãos fecharam os seus olhos.
Pouco a pouco, os seus corpos transformaram-se em pedra.
Os exércitos chegaram
Ao verem o sacrifício dos jovens, compreenderam finalmente que nenhuma guerra podia vencer um amor verdadeiro.
A batalha nunca aconteceu.
Os anos passaram.
Os séculos esconderam quase todo o corpo deles sob a terra.
Hoje ainda é possível ver apenas os seus dois crânios de pedra, olhando para o horizonte.
Debaixo da terra permanecem os seus corpos intactos, eternamente de mãos dadas.
E quando o vento sopra entre as pedras da serra, há quem jure ouvir duas vozes sussurrando promessas de amor.
Porque há amores que nem o tempo consegue esconder.
Muito obrigado ao Fernando Pinto, por mais um grande momento, partilhando os trilhos e paisagens com lendas.