30/05/2026
📍 29 de maio de 1958 — Almada, a Academia Almadense no centro de um momento decisivo da História
1958. Portugal vivia sob a ditadura fascista de Salazar, num contexto de forte repressão política, censura e controlo policial. Nesse cenário, as eleições presidenciais desse ano tornaram-se um raro momento de grande mobilização e esperança na oposição democrática. Existiam três candidatos: Arlindo Vicente, do P*P; Américo Thomaz, candidato fascista; e Humberto Delgado, independente.
Herculano Pires, advogado ligado ao MUD, membro da comissão de apoio à candidatura de Delgado e que mais tarde viria a ser deputado pelo Partido Socialista, abeirou-se da direção da Academia Almadense, liderada por Damásio Esteves, a fim de alugar a sala (actual Auditório Osvaldo Azinheira) para realizar uma sessão com o General. A sala foi alugada por mil escudos, pagos na véspera.
Tanto o presidente da Câmara, Aquiles de Monteverde, como a PIDE, exerceram enorme pressão sobre Damásio Esteves e a sua direção para que o comício não fosse para a frente. Mas a Academia não cedeu.
Na tarde de 29 de Maio, desembarca em Cacilhas o General Sem Medo, banhado por uma grande multidão, subindo para a vila num carro descoberto. A PIDE, a GNR, e a PSP foram imponentes para amedrontar milhares e milhares de pessoas, mas bem tentaram. A sala da Academia e os corredores estavam cheios. O comício aconteceu.
Por volta das 23 horas, apesar um apertado cerco policial, Arlindo Vicente consegue furar as malhas da polícia e reuniu-se com Humberto Delgado nos bastidores do palco da nossa Academia. Iniciou-se a convergência: Humberto Delgado tornou-se candidato da oposição único, num grande movimento da oposição democrática contra o fascismo.
No dia 30 de Maio, Arlindo Vicente anunciou aos órgãos de comunicação social a sua decisão de retirar a sua candidatura, em favor de Humberto Delgado. Foi chamado pela comunicação social fascista de "Pacto de Cacilhas", nome pejorativo talvez numa referência aos famosos burros dessa freguesia. Mas o Pacto de Almada, na verdade, aconteceu em nossa casa.
Fotos: Arquivo da Academia Almadense e Arquivo Municipal
Fonte: Academia Almadense - Memória de 100 Anos, Romeu Correia