11/12/2016
O time fora de campo
POR CARLOS EDUARDO MANSUR
A bela atuação no jogo de ida, decisiva para o Grêmio vencer a Copa do Brasil, gerou imediato debate. Foi resquício do trabalho de Roger? Renato Gaúcho só motivou o time ou ajustou ele a defesa? Ou teve ajuda de Valdir Espinosa? Temos uma tendência a individualizar resultados no futebol, buscar heróis ou vilões. Ocorre que a discussão pode nos conduzir a algo muito mais construtivo.
Motivador, gestor de pessoas, estrategista, estudioso tático, relações públicas... É assustadora a quantidade de atributos que se espera de um treinador, uma soma de virtudes rara de encontrar em uma só pessoa. A complexidade do jogo moderno, as mudanças no perfil do jogador e as rápidas transformações táticas — embora Renato as despreze ou, ao menos, seu personagem diga desprezar — fazem com que o futebol não seja mais tarefa de uma pessoa só.
Treinadores serão sempre líderes de um projeto, idealizadores da filosofia de jogo, do DNA de um time. Cada vez será menos sustentável ter à frente alguém que dispense o estudo, a atualização. Mas hoje, além da boa escolha de um técnico, é vital apostar na equipe que o rodeia, na soma de conhecimentos.
O espanhol Juan Manuel Lillo tem no currículo o comando de times modestos de seu país. Mas ganhou de algumas das cabeças pensantes do jogo moderno um reconhecimento: é referência no entendimento de modelos de jogo ofensivo, com posse de bola e ocupação do campo rival. A ponto de, em 2006, Guardiola ter escolhido jogar no modesto Dorados, do México, para ser treinado por Lillo, que define como um de seus mentores.
Há pouco mais de um ano, Jorge Sampaoli, outra mente tática brilhante, levou Lillo para auxiliá-lo na seleção chilena e, agora, no Sevilla. Buscava agregar conceitos que julgava faltar em seu jogo. É possível que faltem a Lillo algumas das atribuições esperadas do treinador que lidera um projeto, mas grandes cabeças táticas podem estar por trás destes líderes. Guardiola escolheu a dedo o grupo que o acompanha, que inclui Manuel Estiarte, um dos maiores jogadores de polo aquático da História. Vê nele um dom, uma intuição para compreender pessoas e o ambiente do vestiário.
Prestes a estrear como técnico, Rogério Ceni apresenta sinais de que o futebol ganha um personagem alinhado com a vanguarda. Não por escolher estrangeiros, um inglês e um francês, para ajudá-lo. Mas por valorizar a composição de uma equipe, com profissionais donos de conhecimentos complementares ao seu.
A figura do treinador solitário vai se tornando rara, embora persista aqui e ali. Testado em pleno Brasileiro, interino por onze rodadas, Zé Ricardo jamais teve no Flamengo um auxiliar escolhido por ele. Agora, o clube anuncia a intenção de reforçar o suporte ao treinador. Em seus últimos trabalhos, Cristóvão Borges, novo treinador do Vasco, era a imagem da solidão à beira do campo. Ele próprio, durante anos, fiel escudeiro de Ricardo Gomes. O futebol deixou de ser trabalho de um homem só.
O risco do anacronismo
Difícil crer que Renato seja tão alheio ao jogo moderno quanto faz supor o discurso que vende ao público. Mas é nítido que fez uma opção de vida: ter trabalhos eventuais no lugar de ser um técnico de mercado, obcecado por voos altos na carreira. Se quisesse fazê-lo, não seria simples sem se aprofundar no estudo do jogo. Mesmo que tenha virtudes como a liderança e um conhecimento que vem de sua vivência no futebol. E mesmo que tivesse uma boa equipe técnica a auxiliá-lo.
Sua entrevista pós-título, em especial a frase “quem precisa aprender vai estudar”, tem alguns pecados. O maior é o tom desrespeitoso com colegas que decidiram estudar. Outro, é a mensagem à opinião pública, justo numa semana emblemática.
A imprensa inglesa mergulhou no estudo de um Manchester City x Chelsea que criou um consenso: Guardiola e o italiano Antonio Conte “levaram o Campeonato Inglês a novo patamar tático”. Usaram defesas de três centrais, não necessariamente zagueiros, uma tendência atual. Atacados, chegavam a ter cinco defensores. Guardiola pretendia ocupar meio-campo e ataque, ser ofensivo, ter a bola. Conte quis executar a marcação e o contragolpe à perfeição. E venceu. A nova tendência pode alimentar o jogo ofensivo, mas também colocá-lo sob risco.
Na mesma semana, o jornal espanhol “El País” foi conversar com Thomas Tuchel, o jovem técnico do Borussia Dortmund, encontrado cercado de diagramas táticos, consumido pelo estudo de um novo sistema, o 3-1-2-4, que considera ser a tática do futuro. Enquanto isso, Cuca, campeão brasileiro, diz que pretende viajar e estudar. Raras vezes na História o futebol se transformou tão rapidamente.
Levada a sério, tomada como exemplo, a frase de Renato Gaúcho contribui muito pouco num país em que se cobra conhecimento.