02/02/2023
Good read!
Mestre Cobrinha Verde.
"Eu não posso dizer nunca que tenho a capoeira como esporte. Eu tenho como uma luta, defesa pessoal. De muitas coisas eu me defendi com minha luta. Eu me defendi de faca, me defendi de facão, me defendi de ca**te, de foice. Até de bala eu me defendi (...) Então, eu não posso nunca ter como esporte, não posso levar como esporte, só posso levar como luta"
"A capoeira angola é uma luta. A primeira do mundo. É original, por isso ela não tem disputa. Não pode. Dois angoleiros que entendem de luta não podem disputá-la, porque um quer vencer o outro e pode aplicar um golpe mortal"
"(...) eu me defendi de muitas coisas, mas não foi só com a capoeira não. A capoeira para aqueles angoleiros velhos tinha a magia dela. (...) A magia da capoeira é aquela que dedica a botar uma fava-da-índia no bolso, a usar um bom breve e boas orações. Então, eu só estou avisando, prá ninguém confiar só na capoeira prá lutar"
"A capoeira angola é a luta do mundo construída pelos africanos. Na África nunca teve capoeira [...]. A capoeira foi praticada pelos africanos que vieram acorrentados pra trabalharem nos engenhos. A capoeira nasceu dentro de Santo Amaro e Cachoeira, no Brasil."
"Na África eles usavam uma dança denominada de batuque. Essa dança, batuque, tinha esporte como a capoeira tem. Dessa dança é que foi tirada a capoeira [...]. Então foi estudando a curiosidade e aumentando os golpes."
"Não era só a capoeira que me livrava dos meus inimigos. O bom capoeirista é mágico. Ele tem poder de aprender boas orações e usar um bom breve, porque a capoeira não livra a gente de bala”
"O breve que eu usava tinha oração de Santa Inês, de Santo André, de Sete Capelas, tinha Sete folhas. Depois que eu usava, botava ele em cima da mesa num prato virgem. Ele fi cava pulando, porque era vivo. Mas houve algum problema, pois ele fugiu e desapareceu de mim. Foi algum erro que eu cometi e ele foi embora e me deixou. Quando entrei no bando de Horácio de Matos com dezessete anos, eu já tinha esse breve. Foi ele que me livrou de muitas coisas. Quem me deu esse breve foi um africano que até hoje, quando eu falo nele, meus olhos ficam cheios d’água. Ele se chamava tio Pascoal."
M Cobrinha Verde, em Santos, 1991
Mestre Peroba