13/01/2026
ISSO QUASE NÃO É CONTADO, MAS A VERDADE É QUE O CHIMARRÃO NÃO NASCEU NO RIO GRANDE DO SUL.
Como estudioso do folclore sul-americano, com uma vida dedicada à compreensão do chimarrão enquanto fenômeno cultural, histórico e simbólico, afirmo com tranquilidade intelectual: o chimarrão é muito mais antigo do que o próprio Rio Grande do Sul. Ele não nasce de uma fronteira política, nem de um estado moderno. Ele nasce da terra, da floresta, do tempo longo e da sabedoria ancestral dos povos indígenas da América do Sul — especialmente dos Guaranis.
A verdadeira origem do chimarrão
A história do chimarrão começa há pelo menos 2.500 a 3.000 anos, muito antes da chegada dos europeus ao continente americano. Estudos arqueobotânicos e etno-históricos indicam que povos indígenas da região hoje correspondente ao sul do Brasil, Paraguai, nordeste da Argentina e parte do Uruguai já dominavam o uso da Ilex paraguariensis, a erva-mate nativa da Mata Atlântica e das florestas subtropicais da bacia do Prata.
Os Guaranis não apenas consumiam a erva-mate: eles a compreendiam. Para esse povo, a erva era um presente divino. Em narrativas míticas registradas por etnólogos como Curt Nimuendajú, León Cadogan e Bartomeu Melià, a erva-mate surge como dádiva espiritual, ligada à hospitalidade, à palavra compartilhada e à coesão da comunidade.
Beber mate, entre os Guaranis, não era um ato banal. Era um ritual de convivência, um gesto de pertencimento, uma prática social e espiritual.
Como era o “chimarrão” antes do chimarrão
É importante dizer: o chimarrão, como o conhecemos hoje — com cuia, bomba de metal e água quente — é o resultado de um longo processo histórico de adaptação cultural.
Os Guaranis consumiam a erva de diferentes formas. Mastigavam as folhas, preparavam infusões em recipientes naturais, utilizavam cabaças e taquaras primitivas e bebiam coletivamente, reforçando laços sociais. A lógica, porém, já estava presente: compartilhar a bebida como forma de criar comunidade.
A chegada dos europeus e a expansão do mate
Quando espanhóis e portugueses chegaram à região no século XVI, rapidamente perceberam algo que os relatos coloniais registram com frequência: os Guaranis percorriam longas distâncias, mantinham foco, resistência física e clareza mental. A explicação estava no consumo constante da erva-mate.
Registros de missioneiros jesuítas, como Antonio Ruiz de Montoya, descrevem a erva como “a bebida que sustenta o corpo e o espírito”. No século XVII, os jesuítas passam a sistematizar o cultivo da erva-mate, algo que os indígenas já dominavam de forma empírica, porém profundamente eficaz.
Há um dado crucial, raramente mencionado: os Guaranis já sabiam germinar a erva-mate antes dos europeus, utilizando técnicas naturais relacionadas à passagem das sementes pelo sistema digestivo de aves frugívoras. Esse conhecimento foi posteriormente apropriado, registrado e difundido pelos missioneiros.
O chimarrão é sul-americano, não estadual
Afirmar que o chimarrão nasceu no Rio Grande do Sul é um equívoco histórico compreensível, mas incorreto. O que nasceu no Rio Grande do Sul foi uma identidade cultural profundamente associada ao chimarrão, sobretudo a partir dos séculos XVIII e XIX, com a formação do gaúcho como figura social.
O chimarrão nasceu na América do Sul. É anterior a Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Precede qualquer divisão política moderna. É herança indígena, não invenção colonial.
O gaúcho não criou o chimarrão. O gaúcho herdou, ressignificou e eternizou o chimarrão.
O que dizem os estudos científicos
Pesquisas contemporâneas nas áreas de etnobotânica, antropologia e nutrição confirmam que a erva-mate possui alta concentração de polifenóis, xantinas e antioxidantes, além de efeitos estimulantes que favorecem foco, atenção e resistência física.
Teses defendidas em universidades como a USP, a UFRGS, a Universidad Nacional de Misiones e a Universidad de Asunción reforçam que o uso ritual e social da erva-mate entre os Guaranis constitui a base direta do chimarrão moderno.
Chimarrão: mais que bebida, uma linguagem cultural
O chimarrão ensina sem precisar de palavras. Ensina a esperar a vez. Ensina a compartilhar. Ensina a escutar. Ensina que ninguém é dono da cuia, apenas guardião momentâneo.
Isso não é acaso. Trata-se de uma filosofia indígena aplicada ao cotidiano, preservada por séculos sem jamais ter sido escrita.
O Rio Grande do Sul e o mérito que lhe cabe
É preciso dizer com justiça: o Rio Grande do Sul não inventou o chimarrão, mas foi quem mais profundamente o transformou em símbolo identitário. Aqui, ele se tornou rito diário, expressão cultural, resistência histórica e marca de pertencimento.
Honrar o chimarrão, no entanto, é honrar sua origem. E sua origem está nos povos Guaranis, na América do Sul ancestral, muito antes de qualquer estado, bandeira ou fronteira.
Reconhecer que o chimarrão não nasceu no Rio Grande do Sul não diminui o gaúcho. Ao contrário, engrandece, porque demonstra maturidade cultural, respeito histórico e consciência de pertencimento a algo maior.
O chimarrão não é apenas gaúcho.
Ele é americano, indígena, ancestral e coletivo.