27/05/2025
Fazer qualquer atividade diariamente por mais de um ano já exige bastante disciplina — imagine passar algumas horas todos os dias se dedicando a um hobby: pintando, cuidando de plantas, tricotando… Sem falhar um só dia.
Para Hugo Farias, o objetivo era ainda mais ousado: percorrer 42,195 quilômetros - uma maratona inteira, por 366 dias.
Hoje com 43 anos, Hugo trabalhou 22 deles no setor privado, como gestor executivo de grandes contratos de operações tecnológicas. A decisão de pedir demissão e focar sua vida em um desafio esportivo surgiu de um incômodo que foi crescendo aos poucos.
"Chegou um momento em que eu parei e pensei: será que eu vim ao mundo só pra isso? Pra repetir essa rotina por 35, 40 anos? E se for, tudo bem. A gente aprende desde cedo: escolher uma carreira antes dos 18, se especializar, entrar no mercado, buscar estabilidade, construir família, se preparar para aposentadoria. Mas eu comecei a sentir que podia fazer algo mais. Inspirar pessoas de uma forma diferente. Mas... o quê?"
"Sempre fui muito fã do Amir Klink — o navegador brasileiro que cruzou o Atlântico Sul remando, em 1984. Eu pensei: Tá aí. Acho que posso modelar essa jornada do Amir. Só que, em vez de navegar... eu vou correr."
Hugo queria deixar uma marca, e por isso, buscava um feito inédito. Descobriu que um atleta belga, Stephen Engels, já havia corrido 365 maratonas em um ano - e assim decidiu criar um plano com um dia a mais.
"E olha: eu não era nenhum grande atleta. Tinha corrido só uma maratona na vida. Comecei a correr em 2019, meu histórico era recente. Mas a vontade de escrever uma nova histórias, de causar impacto através do esporte… Só crescia dentro de mim."
Hugo começou a desenhar um plano que exigia uma organização minuciosa por oito meses — envolvendo logística, treinamento, apoio da família e de vários profissionais.
"Sabia que não conseguiria sozinho. Montei uma equipe multidisciplinar: médicos, profissionais do esporte como treinador, fisioterapeuta, além de psicóloga... Convidei diferentes figuras para o projeto, e uma delas foi o Instituto do Coração, o InCor."
"Perguntei se eles poderiam me acompanhar, ver como meu coração reagiria a esse esforço: se ia aumentar, diminuir, desenvolver arritmias, alguma adaptação... Queria também gerar alguma contribuição científica — e felizmente o InCor topou."
Hugo completou o desafio em 28 de agosto de 2023. Foram cerca de 1590 horas percorrendo os 15.569 quilômetros totais - um feito que o colocou no Guinness World Records como o recordista mundial de maratonas consecutivas.
O processo teve início com uma avaliação nos moldes da pré-participação esportiva. "Estabelecemos limites baseados principalmente no volume, e não na intensidade, para que ele conseguisse completar o desafio sem risco cardiovascular. Ao longo de todo o percurso, monitoramos marcadores sanguíneos de dano miocárdico, realizamos ecocardiogramas e te**es cardiopulmonares", afirma Alves.
Hugo passou por avaliações mensais com ergoespirometria (teste de esforço que mede o consumo de oxigênio e a capacidade cardiorrespiratória) e, a cada três meses, realizou ecocardiogramas (exame de imagem que avalia a estrutura e o funcionamento do coração). "A ideia era acompanhar as adaptações cardíacas — tanto em larga escala quanto em nível microscópico — e observar possíveis sinais de desarranjo, adaptação ou desadaptação ao treinamento físico."
Os resultados foram publicados na revista científica Arquivos Brasileiros de Cardiologia.
Segundo a médica, as conclusões mostram que apesar da frequência e do volume do exercício, não houve alteração nos marcadores de troponina, que indicam dano miocárdico.
"Foi a principal descoberta do estudo. É possível adaptar o coração a uma carga atlética de grande volume, desde que a intensidade seja moderada."
O cardiologista esportivo Filippo Savioli - que não fez parte do estudo ou acompanhou Hugo profissionalmente - avalia que, no estudo, o achado mais notável reside na ausência de remodelamento cardíaco patológico (mudanças anormais na estrutura do coração, geralmente causadas por esforço excessivo ou doenças), mesmo após 366 maratonas consecutivas — uma carga sem precedentes em termos de volume e frequência.
Ele ressalta que os resultados indicam adaptação cardiovascular (ajustes do sistema circulatório ao esforço) foi predominantemente fisiológica (natural e saudável, e não indicativa de doença).
Hugo Farias participou de um estudo que monitorou as mudanças em seu coração ao longo de mais de 15 mil quilômetros percorridos