17/12/2018
Musculação é saúde
Os efeitos da musculação normalmente são focados no músculo, especialmente na hipertrofia e ganho de força. No entanto, existem diversos outros órgãos e tecidos que podem ser beneficiados, como é o caso tendões. Eu abordo um pouco da importância de se compreender a ação do treino no tendão em meu livro de Hipertrofia, focando na importância de ter estruturas fortes se você quiser treinar de maneira sustentável. No entanto, a musculação pode ir além, ela pode ajudar na recuperação de lesões, por exemplo. Para esclarecer, vou mostrar um estudo nesse sentido que contou com professores de Educação Física (Saulo Soares, Martim Bottaro e eu), Fisioterapeutas (Wagner Martins e Juscelino Blasczyk) e um médico (Wagner de Paula).
O que viria à sua mente se um praticante de musculação rompe 90% do tendão! Cirurgia, imobilização, atrofia e perda de força. Pior, demoraria um tempão para recuperar e nunca será a mesma coisa, certo? Um estudo recente do nosso grupo mostra que não precisa ser assim. Nele, 3 dias após lesão, a imobilização foi retirada e, após um procedimento fisioterapêutico, o paciente voltou a mover o cotovelo. No dia seguinte, começou a musculação! Como, havia uma grande ruptura, precisávamos treinar sem arrebentar tudo de vez. Então optamos pelos treinos bem metabólicos, com 3 series de 20-30reps e 30-45seg de intervalo. Além desse tipo de treino ser seguro, há evidencia que o estresse metabólico aumente a incorporação de colágeno nos tendões. O treino era repetido a cada 4 dias numa academia comum. Os exercícios que não envolviam o tríceps permaneceram iguais. Após 3 semanas, as repetições caíram e os intervalos foram para 1min, para possibilitar aumento da carga sem perder a característica metabólica, e o paciente foi progressivamente levado a treinar até a falha. Após 12 semanas, trocamos o isolado de tríceps pelo supino, mantendo os treinos metabólicos. Após a 20 semanas, o paciente iniciou treinos tensionais, com 4-6reps máximas e, daí em diante, alternamos 2 meses de tensional e 2 de metabólico até fechar um ano.
Resultados. Dois meses após a lesão, o paciente já havia recuperado a circunferência de braço e as dobras cutâneas que antes! Em 7 meses, a carga de 6RM de supino esta em 90kg (antes era 94kg) e, ao final de um ano, não havia mais déficits relevantes de força entre os braços, conforme medido pelo dinamômetro isocinético e o tendão estava recuperado, conforme avaliado pela ressonância magnética.
Olha que louco, em vez de operar e ficar longos períodos imobilizado, o paciente fez musculação, acompanhado por uma equipe muldisciplinar. São coisas desse tipo que nos faz transcender as perspectivas, tanto as nossas, quanto a das pessoas que nos procuram. Então, mãos à obra e aos estudos, pois tem um mundo lá fora para você mudar! O estudo está publicado no Physical Therapy in Sport. Confere lá.
(Paulo Gentil)
Martins WR, Blasczyk JC, Soares S, de Paula WD, Bottaro M, Gentil P. A novel approach for rehabilitation of a triceps tendon rupture: A case report. Phys Ther Sport. 2018 Jul;32:194-199.
Veja em: https://www.researchgate.net/publication/325250948_A_novel_approach_for_rehabilitation_of_a_triceps_tendon_rupture_A_case_report