22/05/2026
Com a oficina homologada e os instrutores formados, o nosso Aeroclube estava a todo v***r. Mas o sonho tinha um preço, e ele chegava todo mês: a parcela do nosso Tupy era em dólar. Numa época em que a hiperinflação devorava o dinheiro brasileiro, dormir tranquilo era luxo. A nossa salvação para fechar as contas eram as "mini festas aviatórias" de fim de semana.
A receita era suor e pura camaradagem. A gente cedia uns bons litros de gasolina de aviação (AVGAS) para o pessoal de Erechim subir a serra com o Charlie Echo (Christen Eagle) e rasgar o céu de Concórdia fazendo acrobacias para chamar o público. Enquanto isso, nós trazíamos o Tupy e o Boero para o pátio de passageiros, descíamos a lenha nos aeromodelos U-Control girando na pista, e faturávamos o que dava vendendo voos panorâmicos para a multidão.
Até que o destino chamou na frequência para um evento muito maior. A Esquadrilha da Fumaça confirmou o seu retorno! Dessa vez, graças ao contato com o primo do meu pai, Bodo — que era nada menos que o Comandante da Base Aérea de Pirassununga —, a visita seria histórica. Eles não viriam com sete... viriam com DOZE aeronaves!
No dia do pouso histórico deles, eu não estava lá. O ofício de "orelha seca" falou mais alto: passei a noite trabalhando com a empresa de som do meu tio, carregando caixa e montando show em outra cidade. Terminei o serviço de madrugada, entrei no carro virado, e fui direto para o aeroporto. Cheguei exausto, mas o que vi no nosso asfalto curou qualquer cansaço na hora...
O pátio estava maravilhosamente entupido. Quase não cabia tanto avião! Eram doze Embraer Tango Dois Sete (T-27 Tucano) espremidos, todos brilhando naquela pintura antiga inesquecível: fuselagem vermelha com faixas brancas e pretas. O Aeroclube virou um formigueiro. A nossa clássica operação "cachorro-quente e aviõezinhos de isopor" estava a todo v***r de novo, e o nosso departamento de aeromodelismo já marcava presença com uns 15 integrantes apaixonados.
O Comandante da FAB e primo do meu pai chegou, e no meio do barulho, presenciei uma cena que me marcou para sempre. Em uma conversa no canto, vi o homem que comandava o maior esquadrão do país desabafar com meu pai sobre a frustração de tentar a promoção a Brigadeiro. Esbarrava na velha política de Brasília, onde o apadrinhamento de gabinete falava mais alto que as horas de voo e o mérito puro. Aquilo soou estranho para mim, mas me ensinou que até mesmo quem está no topo do céu tem que lidar com as turbulências da vida.
Apesar dos pesares, a magia de estar ali prevaleceu. Fui convidado a sentar no posto de comando de um Tango Dois Sete, colocar o capacete e olhar o horizonte através do canopy. Ganhei de presente um macacão da Força Aérea e uma "bolacha" de couro personalizada. Aliás, essa bolacha retangular, estampada em dourado com uma águia, meu nome e "Aeroclube de Concórdia", virou febre. Pegamos o contato do fornecedor e, meses depois, quase todos os pilotos da nossa base desfilavam com o peito estufado usando a sua.
No dia seguinte, a partida foi monumental. Os doze motores acionaram em sequência. Decolaram um a um, juntaram a formação colossal de doze jatos no ar, fizeram uma passagem baixa rasgando a nossa pista e a cidade, e sumiram no horizonte rumo a Pirassununga.
O silêncio voltou a reinar no asfalto, mas por pouco tempo. O nosso hangar e a nossa oficina logo receberiam mais um paciente ilustre. E dessa vez, um jato da Sadia comandado por uma das maiores lendas da aviação comercial: o próprio fundador da Transbrasil, Omar Fontana! Mas esse plano de voo, eu conto para vocês amanhã... 🍻✈️