24/08/2026
As Asas do Cabresto
Quem caminha hoje pelo fundo de qualquer hangar do interior do Brasil conhece a cena: sob uma camada grossa de poeira e teias de ar**ha, repousam fuselagens tubulares enteladas, pneus ressequidos e painéis analógicos mudos. São os Aero Boero, testemunhas silenciosas de uma das maiores farsas patrimoniais da história da aviação brasileira.
Para entender a tragédia, é preciso voltar aos anos do nascimento do Mercosul. O Brasil havia fechado um excelente negócio ao vender 30 treinadores EMB-312 Tucano para a Força Aérea Argentina. Pelo mecanismo de compensação bilateral, era preciso trazer de volta o valor equivalente em produtos de lá.
A indústria aeronáutica do país vizinho tinha musculatura real na época: a Chincul fabricava, sob licença, a consagrada linha Piper — aviões modernos, metálicos, que preparavam o piloto para a aviação comercial e executiva de verdade. Enquanto isso, a fábrica da Aero Boero em Morteros estava praticamente paralisada desde os anos 1970.
Qualquer mente voltada ao desenvolvimento econômico enxergaria o óbvio: bastava criar linhas de crédito acessíveis, isentar de impostos as aeronaves importadas da Argentina e subsidiar o que realmente importa na aviação — a hora de voo.
Se o aluno tivesse incentivo direto para voar, a engrenagem giraria por completo. O dinheiro na ponta alimentaria a instrução básica nos velhos Paulistinhas, daria fôlego aos táxis aéreos, modernizaria as frotas de escolas com bimotores e Pipers metálicos, encheria as oficinas homologadas de serviço e geraria emprego em toda a cadeia da aviação civil. A conta matemática não mente: o montante torrado na operação equivalia a mais de 1 milhão de horas de voo de instrução — volume suficiente para cobrir uma vez e meia a vida útil de todos os motores daquelas aeronaves.
Mas a lógica do poder nunca foi o desenvolvimento; foi o controle.
Em vez de emancipar os aeroclubes, Brasília preferiu a canetada centralizada: ressuscitou uma fábrica obsoleta e comprou, de uma só vez, 366 unidades dos rústicos Aero Boero AB-115 e AB-180. O negócio entregava tudo o que a burocracia ma