07/06/2022
O exercício físico afeta o cérebro de várias maneiras, ajudando no combate a depressão e ansiedade, por ex. E não é pelo “desgaste de tudo que você tem de neurotransmissor não, viu?”, como você vai ver alguns médicos famosos com milhões de seguidores (e pouco conhecimento em fisiologia) falando por aí.
De maneira geral, o exercício aumenta a frequência cardíaca, que bombeia mais oxigênio para o cérebro. Auxilia na liberação de hormônios que proporcionam um ambiente excelente para o crescimento das células cerebrais. O exercício também promove a plasticidade cerebral estimulando o crescimento de novas conexões entre células em muitas áreas corticais importantes do cérebro.
O benefício indireto sobre o cérebro, seria pela melhora da função cardiovascular (e respiratória), desde a diminuição de placas de ateromas (que prejudicam a circulação cerebral), até a melhora circulatória geral, ajudando a fornecer mais oxigênio e glicose ao cérebro, o que poderia criar um ambiente neural mais favorável a sinaptogênese, ou seja, a criação/potencialização de novas sinapses do cérebro, e de vários ouros processos neuroquímicos.
Uma única corrida de intensidade moderada já tem o potencial de elevar o humor (afeto positivo) e a função executiva principalmente no córtex pré-frontal dorsolateral, região essa envolvida no controle inibitório, na tomada de decisões, na execução de ações e na regulação do humor. As evidências mostram que uma corrida moderada já melhora a cognição e o humor.
Evidências mostram que uma parte do cérebro responde fortemente ao exercício aeróbico, a região chamada de hipocampo. O efeito antidepressivo da corrida foi associado a uma maior ação tróf**a/neuroprotetora no hipocampo e como o hipocampo está no centro dos sistemas de aprendizado e memória do cérebro, é razoável pensar na melhora destes.
O exercício pode também nos ajudar a se concentrar e permanecer focado numa tarefa por mais tempo. Durante um estudo na Holanda, eles intercalaram palestras com exercícios aeróbicos de 20 minutos de duração e descobriram que isso melhorou a atenção dos alunos. Em seguida, um grande estudo controlado randomizado nos EUA analisou os efeitos das aulas diárias de esportes que abrangeram todo o ano letivo. Os alunos f**aram mais aptos, mas também se tornaram melhores em multitarefas, ignorando distrações e processando informações complexas.
A sensação de bem-estar desencadeada pelo exercício diz respeito, sobretudo, pela sua capacidade de ativação do sistema endocanabinóide, um dos circuitos participantes do chamado sistema de recompensa cerebral. O sistema endocanabinóide também está envolvido na liberação de BDNF, o fator neurotrófico derivado do cérebro, a principal neurotrofina cerebral, ou seja, o principal fertilizante natural do cérebro. Além do BDNF, o exercício estimula a liberação de IGF e VEGF, outros importantes fatores de crescimento gerais.
Há até evidências que apontam que caminhar ajuda no processo de pensamento criativo, ou seja, que teria potencial de aumentar a criatividade. Outros estudos apontam que caminhar cerca de 45 minutos por dia, 3x por semana, pode ajudar a minimizar o desgaste mental e até retardar o início de quadros demenciais (principalmente do tipo vascular e Alzheimer), bem como diminui o declínio da função cognitiva associada à idade (estudos apontaram que os adultos mais velhos que se exercitam têm volumes cerebrais maiores do que aqueles que não o fazem, assim como uma melhor performance cognitiva).
Em relação aos circuitos de processamento da memória, o exercício físico demonstrou impacto profundo no hipocampo, uma estrutura-chave nesse processo, o exercício aumenta o volume do hipocampo. Também melhora muitos aspectos do pensamento das pessoas. Os estudos apontam que o exercício atua mais em partes do cérebro envolvidas no processamento da memória semântica. Os centros de memória do nosso cérebro tornam-se, em outras palavras, mais aptos.
A memória semântica é, em essência, nosso conhecimento do mundo e da cultura da qual fazemos parte. Representa o contexto de nossas vidas – um acúmulo de nomes e conceitos comuns, como “qual é a cor azul?” ou “quem é o melhor professor de fisiologia da internet? Ela também é uma das mais efêmeras. À medida que as pessoas envelhecem, a memória semântica geralmente é uma das primeiras formas de memória a desaparecer (daí o impacto do exercício no cérebro que envelhece).
Uma meta-análise de 2013 da Cochrane que relatou que o exercício (aeróbico e levantamento pesado) foi “moderadamente ef**az” no tratamento de sintomas depressivos. De particular interesse é que os pesquisadores afirmaram que, para algumas pessoas, o exercício chega a ser quase tão ef**az quanto medicamentos antidepressivos e tratamentos psicológicos.
A desregulação de vários sistemas de neurotransmissores está por trás de vários sintomas dos transtornos mentais, e uma das desregulações base, são as desregulações dos sistemas GABAérgicos e glutamatérgicos (os principais NTs do cérebro). Algumas evidências apontam que o exercício físico moderado pode ajudar a regular o equilíbrio desses dois grandes sistemas, o que poderia contribuir para uma maior resiliência ao aparecimento de transtornos mentais e capacidade de responder a desafios mentais.
O exercício não é uma solução direta para o estresse, mas pacif**a a experiência. É importante notar que o exercício não diminui tanto assim os hormônios do estresse, mas diminui o número de receptores dos glicocorticóides no hipocampo (e melhora a resposta global a ele), um dos principais alvos a “sofrer” com neurotoxicidade induzida pelo estresse. O exercício pode assim, modif**ar a resposta neuroendócrina ao estresse.
Fisiologicamente, o exercício “ensina” o corpo a lidar com o estresse, ou seja, a melhor gerenciá-lo, visto o exercício físico ser um evento estressor per si. Ele faz com que os sistemas fisiológicos do corpo envolvidos na resposta ao estresse, se comuniquem de maneira mais eficiente e rápida, lidando melhor com o estresse por vir: o sistema cardiovascular f**a otimizado, o sistema endócrino, respiratório, e renal também, e óbvio, o sistema muscular. E tudo isso é controlado pelos sistemas nervoso central e simpático, que gerencia a sincronização desses sistemas. Este treino do sistema de comunicação do é um dos verdadeiros valores do exercício; quanto mais sedentários f**amos, menos eficientes são nossos corpos em responder ao estresse.
O panorama hormonal também é modif**ado pelo exercício físico, o que claro, vai repercutir na função neuronal, direta e indiretamente. Além da conhecida diminuição do impacto da ação do cortisol (sobretudo quando aumentada pelos estresses da vida), melhora da sensibilidade à insulina e perfil metabólico geral, o músculo em exercício libera algumas substâncias, chamadas de miocinas, dou destaque aqui a irisina, que além de funções metabólicas gerais, como aumento do gasto energético, eficiência mitocondrial, melhora da sensibilidade à insulina, escurecimento do tecido adiposo branco, tem uma ação em seus receptores neuronais.
Quando atuando nestes, ela leva a ativação do CREB (via essa usada pela maioria dos receptores de monoaminas), via implicada no aumento da produção da BDNF, na sensibilização neuronal as monoaminas, na neurogênese, sinaptogênese, plasticidade sináptica, sobrevivência/diferenciação neuronal, melhora da LTP (evento neuroquímico responsável pela memorização), otimização da função glial, diminuição da neuroinflamação e etc. A irisina também pode ser produzida diretamente no SNC (e também atuar por outras vias de sinalização, como a AMPK), porém tem sua produção/liberação também influenciada pelo exercício, via PGC-1α, que leva a ao aumento da expressão neuronal de FNDC5, a proteína membranar precursora da irisina.
As respostas epigenéticas ao exercício são gerais e visam melhorar/otimizar a função cerebral, como uma espécie de “memória epigenética” que afeta a plasticidade cerebral a longo prazo, tornando a expressão gênica neuronal (e glial) otimizada e menos disfuncional com a idade. O exercício físico também pode fazer o músculo em atividade liberar exossomas (pequenas vesículas intracelulares), contendo micro RNAs, que melhoram a expressão de genes envolvidos com a neurogênese, plasticidade sináptica e neuroproteção, principalmente no córtex cerebral e no hipocampo.
Hoje sabemos também que a inatividade é epigeneticamente deletéria: por exemplo, foi relatado que nove dias de repouso no leito podem induzir resistência à insulina e leve declínio cognitivo em indivíduos saudáveis.
Em resumo, o impacto do exercício na função cerebral se dá de maneira direta e indireta, desde a promoção de um microambiente vascular e hormonal mais favorável a função neuronal (e glial), passando pela melhora do estresse oxidativo e perfil inflamatório, até a ativação e modulação de circuitos cerebrais específicos e a liberação de fatores neurotróficos (via irisina e sistema endocanabinóide, principalmente) que participam dos mais variados processos cognitivos (memória, aprendizado, criatividade e etc). E lembrando também que a grande maioria dos benefícios citados aqui, são consequências de longo prazo, ou seja, são o resultado de uma prática regular de exercícios físicos (meses e anos), mas também já se tem impactos consideráveis de maneira aguda.
Dito tudo isto e por fim, é imprescindível entendermos duas coisas: primeiro, a grande maioria desses estudos dão evidências fracas e moderadas (estudos em animais, observacionais, de correlação e etc) sobre o real papel do exercício na função cerebral, e segundo, o exercício apesar de muito importante, ele tem suas limitações, como tudo nesse mundo, assim, o exercício não vai te deixar mais inteligente, genial e etc, ele “apenas” vai fazer com que o seu cérebro possa estar mais saudável, eficiente (em termos de processamento de informação), e como consequência, ter a possibilidade de render mais.
Pois a inteligência (e a cognição em geral) é um processo ativo, que só se desenvolve plenamente por meio de MUITO estudo, leitura, repetição, pensamento crítico e reflexivo e tempo, somados a boas noites de sono e uma boa alimentação. Como diria o pequeno naruto, não há atalhos. Por isso, se exercite regularmente, coma bem, durma bem, mas ESTUDE e estude muito! É isto. Xeru do tio.
aclerton
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Referências:
Benefit of human moderate running boosting mood and executive function coinciding with bilateral prefrontal activation
scientif**american.com/article/how-exercise-affects-your-brain/
The antidepressant effect of running is associated with increased hippocampal cell proliferation
Effects of one versus two bouts of moderate intensity physical activity on selective attention during a school morning in Dutch primary schoolchildren: A randomized controlled trial
Exercise activates the endocannabinoid system
Intense exercise increases circulating endocannabinoid and BDNF levels in humans--possible implications for reward and depression
Exercise-induced endocannabinoid signaling is modulated by intensity
Exercise for depression
Give your ideas some legs: the positive effect of walking on creative thinking
Acute Modulation of Cortical Glutamate and GABA Content by Physical Activity
Aerobic exercise training increases brain volume in aging humans .
Exercise hormone irisin is a critical regulator of cognitive function .
Effects of the FNDC5/Irisin on Elderly Dementia and Cognitive Impairment .
Exercise-linked FNDC5/irisin rescues synaptic plasticity and memory defects in Alzheimer’s models
Physical Activity and Brain Health
Semantic Memory Activation After Acute Exercise in Healthy Older Adults
The Effects of Acute Exercise on Mood, Cognition, Neurophysiology, and Neurochemical Pathways: A Review
Exercise–Linked Irisin: Consequences on Mental and Cardiovascular Health in Type 2 Diabetes
Stress and the neuroendocrine system: the role of exercise as a stressor and modifier of stress
Exercise effects on depression: Possible neural mechanisms
Physical Activity as a Preventive Lifestyle Intervention Acts Through Specific Exosomal miRNA Species—Evidence From Human Short- and Long-Term Pilot Studies
MicroRNAs in Extracellular Vesicles in Sweat Change in Response to Endurance Exercise