21/10/2015
O projeto Strongfootball tem como missão difundir entre os atletas de futebol americano no Brasil as melhores práticas para que o Football por aqui se oriente pelo alto nível, tanto na dimensão individual (física, técnica e psicológica), quanto na coletiva (tática, estrutural e organizacional), o que talvez seja o fator mais importante nos resultados de uma equipe.
Visto isso, convidamos o Coordenador Ofensivo da Seleção Brasileira de Futebol Americano, Coach Brian Q. Guzman , para que dissertasse sobre a estruturação do time de Ataque. Nosso objetivo, assim, é apresentar aos atletas, iniciantes e veteranos, além de coaches e outros envolvidos com times de FA pelo Brasil, quais são os fatores levados em conta pelo OC (Offensive Coordinator) no momento de montar seu ataque, e fazê-lo trabalhar de forma a pontuar, controlar a posse da bola e o jogo, e levar todo o time às vitórias.
Aproveitamos para agradecer o empenho e o excelente texto do Coach Brian, cuja leitura poderá fazer toda a diferença para as pessoas que dela usufruírem. Não é um tema simples, tampouco usual entre as rodas de conversa. Por enquanto... Para
Para crescermos fortes, temos que pensar forte!
"ESCOLHENDO SUAS ARMAS: Uma breve discussão acerca da estruturação de um sistema ofensivo no Futebol Americano
Um dos maiores dilemas enfrentados por novos (e velhos) treinadores no início de cada temporada, é a escolha do tipo de ataque que seu time utilizará naquele ano. Ainda que nossa percepção comum possa nos levar a crer que essa não é uma tarefa extremamente complicada - afinal, se um Coach conhece bem seus atletas certamente saberia que tipo de sistema encaixaria bem os talentos disponíveis - a realidade do esporte mostra o oposto, de forma que bater o martelo em cima de um sistema ofensivo particular é um dos maiores desafios de um treinador, e consequentemente a fonte de grande parte do seu sucesso ou fracasso em uma determinada temporada.
Talvez a maior armadilha esteja escondida precisamente na tomada dessa decisão. Muitas vezes nos limitamos ao pouco conhecimento que temos do esporte, e da forte influência midiática em nosso meio para formular nossas escolhas baseadas em um "senso comum" que dificilmente reflete a profundidade de possibilidades que nosso jogo oferece. Em outras palavras, caímos na cilada de achar que os "ataques" que assistimos e conhecemos na NFL, ou nas tardes de Sábado na NCAA formam a biblioteca exclusiva de onde o treinador deve caminhar pacientemente entre as prateleiras em busca da inspiração que o ajudará a montar algo eficiente, arrojado e ao mesmo tempo simples e familiar o bastante para seus jogadores. Por mais que nosso acesso limitado à informação sobre o esporte acabe tornando isso o recurso mais acessível, seria prudente e necessário enfatizar que existe uma enorme diferença entre utilizar um recurso e ser definido por ele.
Para entender melhor esse argumento, dividi a discussão em alguns pontos essenciais listados abaixo:
TEMPO DE PREPARAÇÃO DISPONÍVEL
Jogadores e Treinadores profissionais e universitários nos Estados Unidos dispõe de incontáveis horas (no caso da NCAA não tão incontáveis assim) para formular, aperfeiçoar e praticar seus sistemas ofensivos nas salas de reunião e nos campos de treino, de forma que o arco de possibilidades, variações, detalhes e chaves é infinitamente mais amplo do que o permitido por nossa mísera média de dois a três treinos semanais. Portanto, tentar reproduzir o sistema "no huddle" e "up tempo" frenético que tornou Chip Kelly e a Universidade de Oregon relevante pode não ser a aposta mais inteligente, por mais sedutor e impressionante que ele possa ser, simplesmente pela falta de tempo de preparação para tal. Isso não significa que somos incapazes de fazer algo semelhante no nosso FABR, pelo contrário, podemos e devemos incorporar boas práticas ao nosso jogo, mas é aí que a diferença entre usar o recurso e definir-se por ele se torna claro. Em outras palavras, é improvável que consigamos copiar o sistema de Kelly, mas nada nos impede de observar, filtrar e descaradamente roubar elementos específicos do sistema que sejam ao mesmo tempo úteis e condizentes com nossa realidade. Não precisamos entender e ensinar todos o esquemas de sinais de Oregon para poder canibalizar o simples (e inteligente) processo de três "tempos" que ditam o ritmo do ataque dos Ducks. Em resumo, o Coach que está visitando a biblioteca de inspirações deve tocar todos os livros que puder e quiser, mas lembrar-se sempre que a busca eficiente é feita por páginas e capítulos em cada livro, nunca pela obra toda.
TALENTO DISPONÍVEL
Outro grande desafio enfrentado pelo Coach, é julgar com a maior precisão possível o nível de talento (e “atleticismo”) disponível no Roster, uma vez que isso se torna um fator determinante para o que se pode ou não executar. Existe uma percepção muitas vezes errônea dentro dos círculos de treinadores de que os esquemas de bloqueio em zona para o jogo corrido são a melhor solução para uma equipe cuja linha ofensiva é menor ou mais leve que seus adversários. Ainda que essa ideia muitas vezes coincida com os elementos que realmente favorecem a boa execução do zone blocking, por si só ela se mostra um péssimo critério para essa tomada de decisão. Ser menor e mais leve não significa que o jogador é atlético o suficiente para executar o reach block necessário para tornar eficiente a outside zone, ou o cutblock oportunista no backside para abrir as linhas de corte para os backs. Conhecer seu talento disponível é uma tarefa árdua e demorada que muitas vezes vai na contramão do que a cartilha física mostra, mas permite ao treinador fazer escolhas mais aproximadas à realidade da sua equipe e evita a frustração de dedicar tempo à instalação de um sistema que os jogadores não assimilam ou não sentem confiança em executar.
APRENDA COM QUEM JÁ FEZ
Um recurso pouquíssimo utilizado pelos treinadores brasileiros em geral, é o intercâmbio de conhecimento com outros coaches. Ainda que nosso esporte seja relativamente jovem, já existe uma comunidade calejada de coaches e veteranos com uma excelente gama de conhecimento acumulado. As clínicas e congressos específicos de treinadores ainda são poucos e raros, mas há espaço e material humano para que exista uma troca construtiva de informações e boa práticas, já mastigadas e testadas dentro da nossa realidade. Não estou me referindo ao simples fórum de discussões em uma rede social, mas à procura genuína pelo aprendizado com treinadores que estiveram lá e provavelmente já obtiveram seu conhecimento de outros profissionais.
Aprender direto da fonte nos permite assimilar não apenas o conceito, mas o processo de instalação dele com os devidos coaching points, erros e acertos aprendidos por outra equipe. Esse benefício é especialmente importante quando treinamos jogadores veteranos e inteligentes que farão as perguntas certas nos treinos. É essencial que o Coach antecipe essas dúvidas e esteja com as respostas certas não apenas para agilizar e otimizar o tempo da equipe, mas para passar a devida confiança para o jogador de que o sistema funciona. Ao aprender determinado elemento com outro coach, o treinador se colocará em posição de ter essas respostas antes mesmo que as perguntas sejam feitas.
Dito isso, podemos enxergar que ao entender de forma precisa a realidade da sua equipe, o coach possuirá o filtro necessário para conceber seu sistema ofensivo de forma objetiva, eficiente e condizente com seu tempo e recursos disponíveis. Uma vez estabelecido o processo, a pergunta passa a ser: O que compõe um sistema ofensivo no futebol americano?
Na prática, um ataque funcional possui esquemas claros e definidos que compreendem os conceitos de corrida, os conceitos de passe, a proteção de passe, as formações e grupos de pessoal, os constrangimentos e os protocolos situacionais. Esse esqueleto nos mostra o quão difícil pode ser responder à simples e clássica pergunta do "que tipo de ataque você usa?". Apesar de estarmos habituados à ouvir (e responder) coisas como "Spread" ou "West Coast", dificilmente estamos ouvindo ou falando a verdade. Esses vários pilares são formados por diversos elementos na maioria das vezes recortados de experiências passadas do treinador e membros da sua equipe, feedbacks de jogadores sobre sistemas passados, novos conhecimentos obtidos, enfim, uma colcha de retalhos que reflete tudo menos um padrão homogêneo que pode ser resumido em uma palavra ou um termo. Chris Brown, o brilhante autor de The Essential Smart Football exemplifica bem esse argumento:
“Que tipo de ataque você usaria (ou usa)? Uma resposta típica seria algo como: "Eu uso um sistema com bubble screens, play action passes, screens e draws." Essa seria uma resposta automática. Isso não é um ataque; é uma coleção de jogadas. Um ataque consiste daqueles que são seus passes básicos de dropback, suas corridas base, sua base de options, ou outras jogadas básicas e cervicais do sistema.”
Em outras palavras, é preciso definir o que será sua base, seu "feijão com arroz", suas jogadas que funcionarão contra qualquer defesa no quadro branco e sobre as quais você construirá o restante do seu ataque. Uma vez definido esse alicerce, todo o resto passa a ser guiado pela máxima do "use qualquer coisa que funcione." Como o objetivo desse artigo não é se aprofundar em cada um dos elementos dorsais de um sistema ofensivo (isso seria assunto para vários artigos), vamos resumir em poucas palavras os que citamos acima, para servir de parâmetro de pesquisa para um coach trabalhando na montagem do seu ataque.
CONCEITOS DE CORRIDA
Esqueça o dilema absurdo de optar entre Zona ou Power, Read Option ou I formations. Frequentemente ouvimos esses exemplos como coisas opostas e não complementares, quando na verdade elas têm pouco a ver uma com a outra e certamente não são excludentes. A escolha prudente é definir a base do jogo corrido nas capacidades e limitações da linha ofensiva, por mais versáteis e talentosos que seus RBs possam ser. Minha sugestão de elementos a considerar na escolha do Run Game são, respectivamente: Habilidade Atlética e Talento da OL; Ameaça de Corrida do QB; Habilidade dos RBs; Personnel disponível.
Sua linha ofensiva irá determinar o que você consegue ou não fazer. Onde está seu melhor atleta na OL? Você irá centrar o jogo corrido nas habilidades dele? Onde está seu elo mais fraco? De que forma você consegue utilizar o fator tamanho/peso/velocidade da sua linha? Eu particularmente sempre gostei muito dos esquemas de GAP, mais comumente conhecidos como POWER. Grande parte disso se deve ao fato de ter podido contar com atletas grandes e fortes na OL que preferiam muito mais arrastar um defensor em um downblock do que tentar alcançar o ombro de fora dele em um reach block. Além disso, sempre preferi colocar meus melhores atletas na posição de guard, de onde é mais fácil envolvê-los nos traps, pulls e movimentações de corrida. Assim sendo, as corridas de GAP (Power, Counter, Trap) sempre formaram a base do meu jogo corrido, ainda que em muitos casos ele tivesse sido complementado com jogadas de zona interna e externa e até zone reads.
Seu Quarterback é um bom atleta? A ameaça de corrida dele é real? Se a resposta for sim, não perca a oportunidade de construir parte do jogo corrido em torno dele. O modo mais fácil de fazer isso é simplesmente contar que ele transforme algumas das jogadas de passe em ganhos terrestres por scramble, mas essa é uma forma muito limitada de aproveitar essa vantagem. Um QB que corre confere ao ataque a tão desejada vantagem numérica de bloqueadores contra defensores e abre um leque de possibilidades no jogo corrido. Se você optou por basear seu run game nas técnicas de zona, é fácil envolver o QB nas dinâmicas de Zone Read, lendo o defensor desbloqueado e atacando o perímetro com frequência. Da mesma forma, é possível usar os números para correr os esquemas de Power com o próprio QB, garantindo que a defesa esteja sempre forçada a igualar seus números no box e correr riscos no jogo aéreo.
A habilidade dos seus RBs é o elemento mais fluido e adaptável do jogo corrido. Bons backs irão produzir em qualquer esquema, mas é importante levar em conta aquilo que seus atletas fazem melhor. Fatores como velocidade, "fisicalidade" e agilidade irão determinar a orientação das suas corridas base, onde você irá construir seus pontos de ataque e como você forçará a defesa a defendê-los em espaço.
Finalmente, o Personnel disponível possui alguma importância no seu processo de tomada de decisão, ainda que pequeno. O ideal é que seu run game básico possua jogadores disponíveis dedicados às funções específicas. Se você optou por correr esquemas de GAP e possui um bom atleta jogando de FB ou TE, é interessante envolvê-los nos diagramas, mas seu sistema não deixará de funcionar se não houver no seu ataque atletas com essas habilidades. Existem múltiplas formas de executar cada esquema, cabe ao treinador encontrar aquela que melhor se encaixa ao pessoal disponível no roster.
CONCEITOS DE PASSE
Todo treinador com o background ofensivo deve admitir que o fascínio com a infinidade de possibilidades que o jogo aéreo apresenta é mais uma regra do que uma exceção em nosso meio. Talvez isso ocorra porque lançar uma bola para frente em um jogo de Futebol Americano exige uma sincronia impressionante entre diversos setores, e por consequência, um planejamento prévio relativamente mais intenso e personalizado para cada adversário do que o jogo corrido, por exemplo. A única razão para trazer à luz esse argumento, é a necessidade de apontar o quanto manter a coesão e simplicidade do seu jogo aéreo é essencial para a boa execução das suas jogadas.
Em geral, no FABR, equipes com QBs brasileiros atuam abaixo, ou bem abaixo da linha de 50% de eficiência (passes completos) por jogo. Quando o time contrata um Quarterback estrangeiro, essa eficiência em geral sobe, atravessando a barreira dos 50%, e dependendo do atleta e do elenco, chega a entrar na casa dos 60% que para efeitos de comparação com a realidade norte-americana do esporte, é uma marca excelente. Um time com 70% de eficiência em passes seria algo excepcional (e raro) no momento atual da nossa modalidade. Dito isso, é fácil observar que o esforço envolvido na construção do seu jogo aéreo deve ser direcionado sumariamente ao aumento da sua eficiência, notadamente nos aspectos situacionais do jogo (3ª descida e Redzone). Para isso, é importante que haja, acima de tudo, um amplo conhecimento por parte dos jogadores acerca dos conceitos de passe utilizados pela equipe. Esse conhecimento gera conforto e confiança, que aliados à repetição geram boa execução.
A profundidade oferecida pelo jogo aéreo pode se tornar uma enorme tentação que força o treinador a “complicar demais” em busca dos diagramas ideais, aumentando a carga de aprendizado dos atletas e por fim contribuindo muito mais para a ineficiência da equipe do que o contrário. Ao estudar os diversos conceitos de passe já testados e utilizados por outros, o melhor a se fazer é escolher aqueles cuja estrutura básica atende às necessidades da sua equipe, e permite-o colocar a bola nas mãos dos seus melhores atletas. Uma vez instalado o conceito, o processo de variação e personalização do mesmo para cada adversário passa a ser algo natural e pouco complexo para os atletas, gerando profundidade e oportunidades sem prejudicar a eficiência da unidade. Para treinadores que estão em busca de um ponto de partida em seu estudo sobre conceitos de passe, recomendo o “Concept Passing: Teaching the Modern Passing Game” do Coach Dan Gonzales. A obra é uma excelente ferramenta que traz os principais conceitos utilizados em todos os níveis do esporte, com possibilidades de expansão e variação que podem ser filtradas e acrescentadas de acordo com a necessidade do treinador.
PROTEÇÃO DE PASSE
Essa parte do sistema ofensivo é possivelmente a mais crucial, e ao mesmo tempo mais ignorada em nosso meio. Não é coincidência que a maioria dos coordenadores ofensivos começam a instalação do seus esquemas aéreos pela proteção de passe, e que vários treinadores de linha ofensiva desempenham papéis complementares na coordenação de ataque. A OL é sem sombra de dúvidas a unidade que mais depende de entrosamento, conforto e regras sistemáticas sobre as quais seus atletas podem basear as decisões tomadas em segundos quando as balas começam a voar na linha de scrimmage. Em realidade, os esquemas de proteção de passe são exatamente isso, um conjunto de regras que orientam os bloqueadores a adaptar a proteção aos diferentes looks e pressões aplicadas pela defesa. Existem inúmeras formas de fazer isso, e não há uma receita de bolo ou fórmula que funcione para todos os times. Novamente, caímos na gangorra do talento disponível, tempo de preparação e eficiência. O importante é cobrir os três aspectos principais da proteção: Dropback base, Play Action e Movimentos do Pocket.
A proteção de Dropback base determina quantos bloqueadores formarão o alicerce da sua proteção. Times que vivem e morrem pelo spread costumam basear seus esquemas apenas nos 5 offensive linemen, enquanto lidam com as pressões através de gatilhos e escapes. O senso comum geralmente determina um recebedor de proteção, totalizando 6 bloqueadores e envolvendo (usualmente) um dos RBs, mas isso é facilmente ajustável para melhor utilizar seus talentos. Se eu quero evitar que meu Back que mede 1,70m e pesa 75 kgs tenha que bloquear LBs mais fortes e mais pesados na proteção de passe, não há nada que diga que meu sistema de 6 homens estabeleça que o TE seja o recebedor de proteção, enquanto o RB desempenha papel integrado nas rotas do conceito.
Os Play Actions e Movimentos de Pocket são recursos situacionais, e mais acerca disso pode ser debatido em outro artigo, mas em essência, essas variações devem mostrar dinâmicas diferentes das proteções de dropback e surtirem efeitos distintos na defesa. Muitas vezes a melhor forma de desacelerar uma defesa que manda a pressão pelo meio da OL é deslizar o pocket e colocar o QB em movimento, mas para que isso aconteça é necessário que a Linha Ofensiva tenha domínio sobre as regras daquela proteção e sinta confiança em executá-la. Em resumo, a Proteção de Passe é o aspecto do jogo ofensivo que mais exige tempo de vídeo e sala de aula, não apenas da OL, mas de todos os recebedores de proteção e sobretudo do Quarterback.
FORMAÇÕES E GRUPOS DE PESSOAL
Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? O mesmo pode ser questionado sobre as formações e os conceitos. As formações devem ser ao mesmo tempo, um complemento e uma influência aos esquemas de corrida e passe, e muitas vezes acabam sendo definidas por necessidade. Os grupo de personnel ou combinação de posições que seu time irá usar é um fator mais pesado na determinação da sua base de ataque. A opção lógica é ter sempre seus melhores jogadores em campo, e esse critério acaba sendo o maior facilitador na tomada de decisão acerca das características do sistema, afinal, esquemas são importantes e divertidos de montar, mas como o Coach Urban Meyer de Ohio State sempre prega, o que ganha jogos são os atletas talentosos que colocam as mãos na bola. Portanto, se o seu talento está na posição de WR, é natural que seu personnel base contenha 3 ou 4 deles em campo na maior parte do tempo. O mesmo vale para seu plantel de Backs, ou um TE ou FB versátil e produtivo. Todos as outras combinações tornam-se ferramentas situacionais (jardas curtas, jardas longas, goaline) e servem como complemento à sua base.
As possibilidades de formação e alinhamento de um ataque em campo não são infinitas, mas chegam perto. No fim das contas, as formações atuarão como facilitadoras dos seus conceitos de passe e corrida, e devem ser montadas e adaptadas de acordo com o que você quer executar. Como coach, uma das minhas preocupações é manter a nomenclatura simples, de modo que os jogadores possam alinhar automaticamente e dedicar os poucos segundos pré-snap a processar a parte do playcall que diz respeito ao conceito e suas variações, sem se enroscar em formações complicadas demais. Ao conceber as formações do seu sistema, é importante cobrir as disposições básicas que encaixam na maioria dos conceitos. Essas disposições se referem à quantidade de recebedores de cada lado da linha ofensiva (2x2 , 3x1, etc.), e o alinhamento de atletas no backfield (shotgun, pistol, offset, empty, etc.)
CONSTRANGIMENTOS
Existem jogadas ofensivas que não estão necessariamente relacionadas à base do seu sistema, mas são parte fundamental do ataque. Em um mundo perfeito, o seu ataque base é o bastante para enfrentar a defesa base do adversário, mas como bem sabemos, defesas confundem, disfarçam e mudam para tirar o ataque daquilo que ele faz melhor. No fim do dia, vence quem consegue forçar o adversário a sair da sua zona de conforto enquanto ele mesmo permanece dentro da sua base. Os constrangimentos servem exatamente para isso.
Por mais que cada sistema possua relações mais estreitas com constrangimentos específicos – bubble screens em spread por exemplo – o treinador não deve se limitar àquilo que “se parece” com o que você faz. Reversos, End Arounds e Fly Sweeps são todos constrangimentos que se encaixam praticamente em todos os sistemas e não estão necessariamente ligados à nenhum específico. A intenção final dessas jogadas é forçar a defesa a desacelerar e medir sua agressividade, preservando a disciplina de GAPs e coberturas. Em outras palavras, obriga a defesa a voltar à forma base sob o risco de levar big plays ao ser pega fora de posição por um dos constrangimentos.
Atualmente existem sistemas que tornaram seus constrangimentos tão produtivos e frequentes que ficou difícil determinar se eles já não são parte da base do ataque. A maior prova disso é o advento das jogadas “empacotadas”, típica dos ataques “up tempo”, que geralmente prevê algum tipo de screen de perímetro simultâneo a uma jogada de corrida ou conceito de passe. Esse recurso preserva o fator de imprevisibilidade da jogada enquanto oferece uma leitura pré-snap consistente que não atrapalha a tomada de decisão do QB. Grande parte dos ataques universitários atuais possuem essas jogadas empacotadas instaladas, mas para uma observação única da otimização de constrangimentos, recomendo assistir os jogos da Universidade de Montana, cujo Head Coach é o guru ofensivo Bob Stitt. O Coach Stitt tornou relevante o programa da Colorado School of Mines primariamente através de um ataque up tempo amplamente baseado na utilização de jogadas empacotadas e constrangimentos. Chris Brown também resume bem a teoria dos constrangimentos em seu The Essential Smart Football.
PROTOCOLOS SITUACIONAIS
O último aspecto a ser pensado e instalado no sistema ofensivo, são os protocolos situacionais. Esse elemento é geralmente deixado para o final porque ele depende de todos os outros para existir. Os protocolos situacionais são manuais de como proceder em momentos específicos do jogo, quando condições externas forçam o ataque a adaptar seus procedimentos. Os exemplos mais clássicos de protocolo são: Ataque de 2 minutos, Ataque de 5 minutos, Hurry-Up e Hard Count. Cada uma dessas situações exige atenção específica dos jogadores a determinados detalhes, como ficar dentro de campo para manter o relógio correndo ou sair dele para parar o tempo. A criação de protocolos com regras escritas e repetidamente ensaiadas acaba sendo a diferença entre um QB que engole o sack nos dois minutos finais tendo que virar o jogo, e um QB que entende a necessidade de arremessar a bola para fora e preservar os segundos no relógio. Por mais que essas decisões pareçam algo óbvio que todo atleta e treinador deve saber, apenas o treino exaustivo dessas situações permitirá que tanto jogador quanto coach estejam condicionados a fazer a escolha certa sob a pressão do momento.
Os detalhes são mínimos, mas cruciais. Em um ataque de 5 minutos, por exemplo, quando o time a frente no placar está de posse da bola com a intenção de sangrar o relógio. É imperativo que o ataque siga orientações específicas que precisam estar frescas na mente de cada jogador à medida que as jogadas são executadas. Em geral a ordem de prioridades nessa situação é:
PROTEGER A BOLA – MANTER O RELÓGIO CORRENDO – CONSEGUIR A PRIMEIRA DESCIDA.
A ênfase dada à proteção da bola mudará o foco de todos os envolvidos no manuseio dela, do Center no snap, ao QB no handoff, ao RB na carregada. Poderíamos argumentar que a segurança da bola é um fundamento constante que não depende de situações específicas, e isso é verdade, mas no mesmo contexto de 5 minutos, a defesa está seguindo seu próprio protocolo que realça o esforço de atacar a bola e forçar o turnover, de modo que a atenção extra dedicada à segurança dela é essencial para evitar um desastre. Esses mínimos encaixes são cruciais para a eficiência total do ataque, e não é incomum ver treinadores que pregam que um bom futebol americano situacional é a espinha dorsal de qualquer sistema ofensivo. A verdade inegável é que a falta de protocolos ensaiados e treinados acaba resultando em derrota, sobretudo nos jogos apertados.
CONCLUSÃO
Esse artigo buscou tecer um esboço geral (e pouco ambicioso) dos elementos básicos que compõem um ataque no futebol americano, e oferecer indicações e sugestões de como pesquisar, filtrar e selecionar os recursos que no fim formarão cada elemento do sistema ofensivo. Como tudo em nosso esporte, esse modelo não passa da visão particular de um treinador que sabe pouco do jogo, e que obteve esse pouco aprendizado com coaches mais experientes e mais inteligentes. A forma “certa” de criar e ensinar um sistema de ataque é aquela que melhor atender às necessidades da sua equipe, dentro do seu tempo de preparação disponível. Em outras palavras, os modelos e estudos de caso existentes podem servir de inspiração e orientação, mas surgirão contratempos e necessidades de ajustes no processo que só você saberá solucionar. A particularidade de cada time é justamente o que enriquece o conhecimento geral sobre o esporte, uma vez que seus erros e acertos servirão de aprendizado para outros treinadores. Portanto, devemos sempre lembrar que muito mais do que vencer jogos e conquistar títulos, o treinador tem o importante papel de produzir e compartilhar conhecimento, contribuindo de modo indispensável para a evolução constante do Futebol Americano."
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