08/05/2025
Quando a gente viaja, o que aparece nas redes sociais são sempre as fotos lindas: o pôr do sol dourado, o mar cristalino, os pratos exóticos e os sorrisos de liberdade. Mas o que ninguém mostra — ou só revela depois, em tom de piada — são os bastidores nada glamourosos dessas experiências.
Na minha última viagem, logo no segundo dia, pisei num coral e machuquei o dedão do pé. Um furinho de nada, pensei. Segui curtindo: praia o dia todo, caminhadas na areia, água salgada entrando no machucado… até que aquele furinho virou um rombo. No quarto dia, meu pé estava tão inchado que eu mal conseguia caminhar. O Fer, que estava comigo, começou a me alertar: “Isso tá com cara de infecção.” E, sinceramente? Acho que estava mesmo.
Resultado: fui parar na UPA. O médico examinou, resseitou antibiótico (que eu disse que só tomaria em último caso), uma pomada, um anti-inflamatório e a recomendação clara: não molhar, não pisar com o pé machucado, repouso absoluto.
No dia seguinte, lá estava eu… na praia de novo.
Mas esse episódio me fez pensar em algo mais profundo.
Por que será que, mesmo quando vivemos experiências incríveis, a gente sempre precisa encaixar algum perrengue na história? Parece que, inconscientemente, sentimos que não temos permissão para dizer: “Foi maravilhoso do começo ao fim.” É como se a gente precisasse de um ponto de sofrimento para justificar o prazer. Como se disséssemos: “Tá, eu me diverti… mas olha o que eu passei também!”
No fundo, é como se houvesse uma regra invisível: não seja tão feliz, não exagere na leveza, não mostre só o lado bom — senão corre o risco de ser julgado, excluído ou incompreendido.
E aí, quando contamos a viagem para amigos ou parentes, não falamos da beleza, da conexão, do quanto a alma se expandiu… Contamos das “perebas dos infernos”, como se isso fosse mais aceitável, mais comum, mais seguro.
Talvez esteja na hora de mudar isso. De nos permitirmos viver — e contar — as histórias inteiras. Com os encantos, os aprendizados e sim, os perrengues, se eles acontecerem… mas não como uma necessidade de justificar a felicidade. Apenas como parte da jornada.