12/07/2026
Tributo a Maués -
O que mais te encanta e seduz em uma pequena cidade?
As razões podem ser muitas. Para mim, porém, uma cidade vai muito além de sua estrutura física, de suas ruas asfaltadas, praças, fachadas, casas e prédios. Uma cidade é feita, sobretudo, de gente; de histórias reais e imaginárias tecidas na lida cotidiana.
Dizem que a verdadeira intimidade só é possível nas pequenas cidades. É nelas que habita a essência da amizade: no encontro casual da feira, nas manhãs ensolaradas à beira da praia, nos cultos das igrejas e dos templos, nas conversas demoradas à porta de casa ou nas tardes de futebol que terminam em alegres resenhas.
Aos olhos do coração, o essencial são as pessoas. São elas que transformam o cotidiano em memória, que constroem suas narrativas sobre conquistas e derrotas, lágrimas e risos, amores encontrados e perdidos. Histórias de paixões intensas, da contemplação da beleza, do riso inocente das crianças e da saudade que o tempo insiste em guardar.
Maués é assim: sedutora. Terra de um povo orgulhoso de sua história, herdeiro da bravura dos Sateré-Mawé e guardião do lendário guaraná. Um povo simples e acolhedor, que precisa de pouco para viver em paz e ser feliz.
Gente acostumada às porções diárias de carinho, ternura e esperança, sem jamais perder o espírito guerreiro, a rebeldia dos seus sonhadores e a sensibilidade de seus poetas, que ainda falam de amor, de sonhos e de revolução.
As manhãs em Maués têm um encanto próprio. A cidade desperta com as badaladas do sino da igreja, o canto do galo rompendo a madrugada e a brisa fresca que sobe do rio e atravessa a floresta. É impossível não saborear o primeiro gole do guaraná ralado na língua do pirarucu, tradição que simboliza vigor, longevidade e identidade.
E, quando chega a tarde, o espetáculo se renova. O sol rubro se despede beijando as águas escuras do rio Maués-Açu, enquanto as canoas deslizam silenciosas sobre a superfície.
Nas praças, o tempo parece caminhar devagar. Conversa-se sobre tudo e sobre nada, sem pressa, como se a felicidade morasse justamente nesses pequenos instantes.
Foi em Maués que descobri que uma cidade pode conquistar um coração. Cercada pela exuberância da floresta, praias de água doce e a força de sua cultura, ela não é apenas um dos mais belos lugares do Amazonas. É um estado de espírito. Um lugar que inspira, acolhe e transforma. Foi ao conhecer Maués, que decidi, permanecer no Amazonas!!! E lá se vão 50 anos.
Miguel Pacheco
É jornalista e membro da Academia de Letras de Maués - ALMA