02/02/2026
70 — A ARTE DE CONTINUAR 🎂🚲
Por Paulo Pecê
A vitrola é minha — e eu não permito que troquem o vinil de Paulinho da Viola, trilha sonora que toca minhas palavras.
“E a vida continua, esse é um dito que todo mundo proclama (...).”
Pois é: com orgulho, sou 70!
Setenta nas pernas, na cabeça, no coração — e, vá lá, nas dobradiças que às vezes rangem, avisando que o lubrificante venceu! Mas eu não ligo. A vida é movimento.
E eu me mexo — às vezes andando, outras pedalando — para que as juntas não parem com defeito nas curvas, nem levem multas por velocidade extemporânea.
Setenta é tão mágico que cheguei sem esquecer nada: nenhuma pessoa, nenhum familiar, nenhum parente ou amigo. Tudo foi tão magistral que não deixei para trás as lições dos lugares onde bati ponto, dos livros que me ensinaram, nem dos caminhos que me moldaram.
Tudo somou, contribuiu, fez de mim um ser múltiplo, plural — e me ensinou que a vida vale tanto quanto um pássaro em voo, planando entre os dois mundos que aprendemos a conhecer.
Posso gritar, a plenos pulmões: “Fui, vi e venci!”
Sim — venci, ganhei, chorei, sorri, perdi, amei, sofri. Mas o verbo não mora no passado: quem ama, segue amando — a vida, os amigos, a mulher, a mãe, o pai, os filhos. Um depende do outro. E vice-versa.
São 70 anos colecionando memórias. De tanto tropeçar nas pedras do caminho, já dei uma volta ao mundo — com histórias tatuadas na pele, na alma e no osso duro de roer que eu sou.
“Faria tudo do mesmo jeito?”
Faria.
Porque escolhi o caminho mais longo, o que tinha mais subida, o mais difícil de chegar — sem atalhos, óbvio! Se fosse possível corrigir o vento e o tempo, eu trocaria a vela que levou para longe de mim os três que eu trouxe para habitar comigo.
Mas, para que a justiça prevaleça, hoje eu pago — com juros — o prejuízo que dei aos meus pais, ao deixar o ninho antes mesmo do primeiro tempo da adolescência. Talvez por isso mesmo eu tenha aprendido, na marra e na raça, que “o pau que bate em Chico, bate também em Francisco.”
E assim, sim: assim a vida continua. Porque, no fim das contas:
“o que passou foi embora, e o que vem não se sabe (…)”.