05/12/2023
N129 - "UmporDia" - 051223
CEMITÉRIO DA PAZ ETERNA.
A noite é quente, estou deitado quando ouço alguns tímidos pingos sobre o telhado. Brinco e grito em voz alta.
-Shazaaaammmmm!!!
E no mesmo instante um enorme trovão me responde.
Quase caio da cama com o baita susto que levei.
Tento ver o temporal que se formou, mas nada. Minha curiosidade me leva para fora, mas não vejo nuvens, apenas uns gatos pingados de chuva.
Ledo engano, pois a partir deste momento o mundo cai sobre minha cabeça. É tanta água que, em segundos ela já cobre todo o meu jardim. Mais um pouco e vejo a água entrando pela casa casa. Corro para a cozinha e ela já está tomada de água: subo então na geladeira, a minha única salvação.
Em meio aos móveis que boiam, adormeço sobre quem me guarda atentamente, sem desmoronar. Os pingos, agora, parecem me alertar para algo que ainda está por vir. Sou acordado por um deles, que escorre pelo meu rosto:
- Me ajude, procuro por minha mãe.
- Como assim, e pingo tem mãe? Será que estou sonhando?
- Me ajude!!!
- M…as eu estou em situação pior que a sua. Não vê que estou aqui, ilhado dentro da minha própria casa?
Neste exato momento o telhado cai. Estou novamente em apuros, descendo a rua sobre uma geladeira sem freios nem direção. Bom, em meio à tragédia, pelo menos estou vivo, tentando pensar positivamente.
E de repente, me vem à lembrança sobre aquele pequeno ser molhado.
- Que fim será que teve aquele pobre pingo?
- Ei!! Estou aqui, na sua testa! Nos salve!!!
É quando vejo outros pingos nos meus ombros. Percebo então que é uma família.
- Segurem firmes! Vamos sair dessa!
A geladeira agora é nosso super veículo aquático.
Com um abacaxi, vou desviando dos postes e das árvores. A panela de feijão serve como remo e o brócolis, ah… esse eu adoro. Vejo ratinhos na gaveta e uns gatos se equilibram na porta; fazem um lanchinho com o patê que sobrou de ontem.
Um cãozinho uiva desesperadamente sobre o capô de um carro. Resgate difícil, mas com muito custo ele também consegue entrar no nosso "bólido". Tripulação completa, agora é só chegar ao destino final, lá tem uma árvore enorme, onde poderemos ficar entre os galhos e esperar o mundo se acalmar.
Noto um ar de apreensão em cada rosto, mas tento acalmá-los
- Não temam, o capitão está com vocês.
Muito bem, o plano está completo, estamos salvos, achamos a árvore. O cansaço nos faz adormecer e na manhã seguinte não vejo nenhum dos meus amiguinhos.
- Os pinguinhos devem ter encontrado sua mãe e os demais também devem ter partido para suas casas - penso.
Desço da árvore, há grilos e cigarras cantando, os pássaros, meio sonolentos, batem suas asas. Sou atravessado pelos primeiros raios de luz. Neste mesmo instante vejo o meu reflexo em uma poça d'água, pareço mais jovem, feliz, cheio de esperança.
A sombra e a leve brisa me reconfortam. Parece que estou de volta a um local conhecido, mas um único sentimento me vem à cabeça: não vejo a hora de encontrar com meus pais, meus irmãos, meus amigos. E o Pingo?
- Não, não, não… não aquele que conheci na noite passada, é o meu cãozinho.
- Cadê vocês? Sinto saudades, quero conversar, quero brincar…