22/03/2020
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Qual a “marca” do treinador brasileiro?
Recentemente um grande treinador brasileiro, amigo e companheiro nas licenças A e PRO passou 15 dias em um grande clube europeu, nível “Liga dos Campeões”, acompanhando treinos desde a base até o profissional. Quando ele voltou, batemos um papo sobre essa experiência que ele teve. E foi aí que ele me contou, surpreso e um pouco decepcionado, que viu muitos treinos coletivos (11x11) de campo aberto (sem impedimento), treinador de braços cruzados no meio do campo e parando o treino durante 10’ pra dar bronca num frio absurdo, muito treino de finalização sem resistência, trabalhos de 4x4 sem impedimento, “quem pega primeiro bate”, etc. E aí emendou o seguinte comentário: “se ele fosse brasileiro estaria defasado, mas como é europeu, o trabalho é moderno e atual.”
Isso me trouxe uma reflexão. Quem criou essa “marca” associada ao treinador brasileiro fomos nós mesmos. A falta de um curso de formação oficial e reconhecido mundialmente (problema solucionado), resistência ao estudo, muita fé no “talento dos jogadores”, a soberba por ter as 5 estrelas e não saber falar sequer um 2º idioma são alguns dos fatores que fizeram com que nossa marca enquanto treinadores no cenário mundial esteja associada à resenha, risada, coletivo, chute a gol e rachão. E isso nos afastou, por algum tempo, até do mercado árabe, onde tradicionalmente sempre tivemos boa entrada.
Felizmente isso está mudando. O passo inicial foi a criação e reconhecimento dos cursos da CBF (CBF academy). Já somos 3 aqui na Liga PRO da Arábia Saudita (Pericles Chamusca, Fabio Carille e André Gaspar). E tenho certeza que cada vez seremos mais. Com uma nova mentalidade, uma melhor preparação e devidamente habilitados vamos construir pouco a pouco uma nova “marca”, com treinadores qualificados, preparados e capazes de trabalhar em um mercado global. A responsabilidade de quem quer que saia de nosso país para trabalhar fora é ENORME. Desde meus tempos de atleta profissional, isso sempre foi um fator que me motivou muito. Represento meus pais, minha família, minha cidade (Recife), meu estado (Pernambuco) e meu país. Minhas ações criam nas pessoas com quem me relaciono, uma imagem de quem sou e de onde venho. Abriremos ou fecharemos portas de acordo com nosso proceder. Não podemos dar mole mais uma vez. Com a globalização, a concorrência aumentou demais.
Vejo as escolas de treinadores da Argentina, Portugal, Espanha e Inglaterra promovendo seus treinadores, com um trabalho institucional consistente de marketing. Souberam criar uma “marca” e vendem essa marca muito bem. Cada uma explorando muito bem o que o mercado pede. Sinto falta desse trabalho institucional associado ao treinador brasileiro. Aqui tenho a impressão de que é cada um por si.
Desde 2013 venho fazendo as licenças da CBF. Comecei na C e já finalizei a PRO. Posso afirmar uma coisa sem medo de errar: temos no Brasil vários treinadores de EXCELÊNCIA Treinadores com ideias, conteúdo e competência para trabalhar em qualquer liga do mundo. Talvez a maior riqueza que os cursos me deram foi a possibilidade de conhecer pessoalmente mais de 300 treinadores e demais profissionais ligados ao futebol. E assim perceber a grandeza de minha ignorância.
Me fala tua opinião e me diz também a primeira palavra que te vem à mente quando escutas falar sobre o “treinador brasileiro”. Qual nossa “marca”? E como poderíamos agregar valor à essa marca para torna-la uma grife mundial?
Saúde e paz a todos.
Marcelo Salazar
21.03.2020