10/08/2015
Infelizmente o treino funcional tem ganho má reputação e confunde-se este tipo de treino com o treino em superficies instáveis ou com o treino que consiste em replicar os movimentos de uma determinada modalidade desportiva no ginásio, trabalhando “tudo ao mesmo tempo” e/ou na lógica do “quanto mais melhor”.
Ora bem, quando falamos em treino funcional, importa saber do que é que estamos a falar, portanto, primeiro é preciso definir e entender bem o conceito para podermos falar sobre isso. Faz sentido, certo? O conceito de treino funcional surgiu em primeiro lugar como uma extensão da fisioterapia em meados dos anos 90 com o objetivo de simular o treino de movimentos específicos das atividades diárias ou das modalidades desportivas praticadas. Vários autores já abordaram o conceito há algum tempo atrás, os primeiros que o fizeram foram o Juan Carlos Santana – Quatro Pilares do Movimento Humano (1999), o Paul Chek – Movimentos Primais (2001) e o Gray Cook – Functional Movement Screen (1998). Outros autores também já contribuíram com várias publicações para definir o conceito:
“O treino funcional envolve mais que o treino em superfícies instáveis, bolas de estabilidade e elásticos. O treino funcional engloba um conjunto de métodos e aplicações que ajudam na transferência do treino para a competição (…) a função deve ser vista como uma abordagem integrada (ao contrário de isolada) que envolve o movimento de partes múltiplas do corpo em múltiplos planos.” Gambetta (2007)
“O treino funcional incorpora o objetivo de aumentar a força ao longo da cadeia de ligação do corpo. Isto garante que a força é gerada rapidamente, através de movimentos e posturas complexas, num ambiente que preserva o equilíbrio e a estabilidade das articulações enquanto evita riscos de lesão.” McGill (2009)
“Contínuo de exercícios que ensina os atletas a suportar o seu peso corporal em todos os planos de movimento.” Boyle (2010)
A meu ver, o grande objetivo do treino funcional é induzir uma adaptação específica para um determinado indivíduo – e é daqui que nasce a importância de personalizar o treino de acordo com as necessidades e objetivos de cada pessoa. Num contexto desportivo, esta adaptação pode ser traduzida como o resultado num jogo, num torneio, numa prova ou em qualquer outro evento pontual. Num contexto da vida diária, pode ser traduzida como em sentar e levantar da cadeira, carregar as compras do supermercado, subir escadas, levantar objetos do chão, brincar com os filhos ou netos, reagir rapidamente para não cair, etc.
Embora hajam adaptações gerais que todos os seres humanos beneficiam e precisam para manter a integridade da sua saúde e do seu sistema músculo-esquelético, a verdade é que numa perspetiva de otimização da saúde e de aumento de longevidade interessa sempre conhecer as limitações físicas e assimetrias para poder adoptar uma estratégia pró-ativa nesse sentido, sejam desportistas profissionais ou atletas recreativos. Por isto é que se devem fazer avaliações in situ com o indivíduo antes de desenhar um programa de treino. Há quem goste de adivinhar e de mandar uns bitaites para o ar – esse não me parece o melhor caminho.
Se você está a fazer treino funcional (daquele que é mesmo funcional e não daqueles actos de circo que já vi partilhados no youtube) você provavelmente vai melhorar a sua competência geral de movimento – é disto que o seu corpo precisa e foi assim que o seu corpo evoluiu. Mais, um programa de treino funcional corretamente aplicado encerra em si mesmo uma componente de prevenção de lesões porque o seu cérebro e corpo irão saber reconhecer os movimentos que entretanto se esqueceu por causa do seu estilo de vida sedentário.
Na minha opinião, enveredar por um programa com estas características trará sempre maiores benefícios e a razão pela qual destaquei o treino funcional nesta lista tem a ver com a deficiente compreensão (e alguns preconceitos) daquilo que se entende como “treino funcional” e a sua correta aplicação. A nossa vida é um constante desafio à melhoria da performance, portanto o treino (tal como a nutrição) deve ser sempre que possível funcional e personalizado, seja a levantar pesos pesados, a fazer um lunge com o peso corporal ou a fazer um drill específico para uma determinada modalidade desportiva.
Texto tirado do Blog Oficial de Pedro Correia, Performance Specialist.
Link:https://pedrocorreiatraining.wordpress.com/2014/12/22/7-mentiras-sobre-exercicio-fisico-que-estao-a-tornar-as-pessoas-mais-fracas-e-menos-funcionais/