04/12/2017
SER MULHER NO TATAME
Ela demora a se dar conta de que tem escolhas, porque passa a vida recebendo informações demais sobre como uma mulher deve se portar, falar, vestir e até qual esporte deve praticar. E, ao optar pela prática do jiu-jitsu essa mulher aprende rápido que só a superação diária a manterá no único lugar que ela escolheu para se libertar de toda essa lógica: O TATAME.
Não é fácil pra ela optar por coisas que quase sempre vão de encontro aos desejos do pai, da mãe, do irmão, do namorado, da família toda, porque infelizmente é o que acontece quando uma mulher percebe que nem toda menina gosta de balé e nem todas se conformam em seguir o padrão do que se espera para a filha, a mãe, a esposa, a namorada, a estudante, a profissional. E será neste embate entre as suas escolhas e a lógica da vida que ela vai se moldando, se fortalecendo, se transformando, sem desistir das suas convicções.
Há os agravantes. Ela sangra todo santo mês e precisa saber lidar com isso. Ela sente dores exclusivas de mulher e necessita proteger várias partes do corpo o tempo todo. E ela vai perceber que as suas mãos são mais finas e o kimono pode parecer uma lixa. Ela quase sempre será minoria na academia e infelizmente corre o risco de descobrir as diferenças de forças e pesos em relação aos homens da maneira mais traumática. Mas ela vai sobreviver e vai provar que nasceu para estar ali.
Daqui a algum tempo ela vai mudar o discurso distorcido e calar a boca de muita gente ao dizer que, apesar dos pesares, o jiu-jitsu foi tão positivo na sua vida que ela passou a se amar de uma forma única, que a alma está mais leve, que os ganhos físicos são perceptíveis, que a sua saúde geral melhorou e agora ela desfruta de uma sensação de segurança que nunca havia experimentado antes.
Vão perguntar a ela sobre os pontos negativos e ela dirá que mesmo precisando abrir mão de ter unhas grandes e do cabelo perfeito sem nenhum fio quebrado para conviver com hematomas e luxações, com calos e contusões, ela está mais feliz do que nunca, porque além de tudo ela ainda ganhou outra família que a faz sentir viva.
É fato que ninguém é obrigado a saber o que essa mulher suporta para levar a sua vontade adiante dentro de uma sociedade excludente e pouco sociável com tudo que quebra a lógica tão cuidadosamente estabelecida ao longo de séculos, mas mesmo os céticos têm a obrigação de reconhecer que quando ela escolhe praticar o jiu-jitsu jamais deve ser subestimada por carregar o estigma de ser frágil, porque ela nunca vai usar os seus problemas, limitações ou dificuldades como desculpas para não treinar sério.
Por: Erika Vilhena - Faixa Preta de Jiu-Jitsu.