29/01/2020
Não estamos sós no universo escoteiro nacional
No início do século XX, com a difusão do Escotismo no mundo, surgiram no Brasil diversas associações escoteiras para a propagação do movimento no Brasil. Como é sabido, a ideia inicial de B-P era justamente esta, de que o Escotismo se propagasse como ação complementar à educação formal. Mais para frente, para facilitar a gestão do Escotismo e consolidá-lo como a grande fraternidade que é, nosso fundador sugeriu que as diversas pequenas associações que foram se formando convergissem para uma única entidade.
Dessa forma, essas pequenas associações começaram a se fundir. No Brasil, foi o caso da “União” dos Escoteiros e da “Federação” das Bandeirantes, na medida em que na metade do século XX garotos e garotas se dividiam em entidades distintas, acompanhando a organização social da época.
Na virada para a segunda metade do século XX, assim como em outros lugares do mundo, o Escotismo nacional gozava de grande status social, atraindo muitas personalidades e autoridades em torno da causa escoteira, de Olavo Bilac a Benjamin Sodré, contando com a simpatia de presidentes da república como Getúlio Vargas e seu sucessor José Linhares, que emitiu o famoso decreto 8828/46 que colocava a UEB na altiva posição de “órgão máximo do Escotismo nacional”.
Com o avanço dos tempos e com a sucessão de outros acontecimentos, esse momento de glamour deu lugar a outras modas e outras preocupações. A ascensão de outros movimentos sociais como o integralismo e o próprio período do regime militar trouxe para muitos uma falsa interpretação do que eram os Escoteiros e quais os objetivos do Escotismo.
Outro aspecto que cabe destaque foi a questão da coeducação, iniciada na década de 1960 e alavancada a partir da década de 1980, onde passaram a existir jovens de ambos os gêneros tanto do Escotismo quanto no Bandeirantismo. Tal fato mostra-se suficiente para atestar que o “movimento Scout” nunca girou em torno de uma única associação no Brasil. Se já não fossem Bandeirantes e Desbravadores, sempre houveram grupos independentes fazendo escotismo por ai, da comunidade húngara ao padre osasquence, cujas conversas buscando trazê-los para a entidade imperante nunca mostraram-se frutíferas.
A revisão constitucional concluída em 1988, que consolida a democracia e a liberdade associativa, coloca por terra qualquer tentativa de controle impositivo de “exclusividade” do Escotismo no Brasil. Principalmente à partir dos anos 2000 começam a pipocar pequenas entidades “não alinhadas” fazendo Escotismo por ai, publica e notoriamente, para quem quiser ver. Sejam os Scouts Brasil http://www.aebp.org.br/ , sejam os Escoteiros Florestais https://www.facebook.com/EscoteirosFlorestais, sejam os Escoteiros Tradicionais https://www.facebook.com/escoteirotradicional/, sejam os Exploradores http://exploradoresdobrasil.com.br/ ou, mais recentemente ainda, a Sempre Alerta Brasil http://semprealertabrasil.com.br/, sem querer esgotar a lista.
Obviamente que essa multiplicação das pequenas associações são fruto do fracasso institucional de oferecer vantagens suficientemente adequadas para quem optou por seguir de forma independente. Ao invés de seguir pelo caminho do trazer junto, a UEB preferiu o caminho judicial, seguindo a ideia de que “Escoteiros” era uma marca da qual detinha posse exclusiva. Obviamente que tal estratégia mostrou-se um fracasso e só fez sofrer os cofres institucionais donde se esvaíram dezenas de milhares de reais em ações judiciais e honorários advocatícios que para nada serviram, chegando até a instância do supremo tribunal federal (vide https://www.jusbrasil.com.br/diarios/documentos/773926124/andamento-do-processo-n-1755455-recurso-especial-28-10-2019-do-stj?ref=feed ).
Não é preciso ser um jurista experiente (embora tenhamos consultado alguns) para perceber que tais iniciativas além de ser escoteiramente antipáticas são um desperdício de recursos (leia-se de tempo e de dinheiro) que seriam muito melhor utilizados em outras frentes, como a de justamente tentar compreender o que desagrada esses grupos ao ponto de não quererem integrar nossa entidade.
Precisamos de mais administradores e menos advogados, precisamos parar de bater e começar a abraçar. É preciso ter uma decisão em assembleia nacional que proíba a instituição de seguir pela fracassada linha judicial e, finalmente, é preciso abandonar definitivamente a ideia de que somos “órgão máximo e exclusivo” de alguma coisa, entendendo e seguindo as “regras do mercado” de que as associações locais só ficarão vinculadas a instituição pela qualidade do que lhes é oferecido. Capito?
O Escotismo que queremos. Caráter importa!