15/07/2026
Cassongo: O Rio Onde a Nossa Infância Ainda Vive
Há lugares que o tempo nunca consegue apagar. O Cassongo é um deles.
Quem cresceu no Luena, principalmente nos anos noventa, sabe que o Cassongo nunca foi apenas um rio. Era um pedaço da nossa infância, um refúgio onde a alegria corria tão livre quanto as suas águas.
Não havia carros para todos, nem facilidades. O caminho era longo, feito a pé, muitas vezes descalços, enfrentando o sol, o pó e o cansaço. Mas ninguém reclamava. Cada passo era alimentado pela certeza de que, no fim da caminhada, estava o nosso paraÃso.
Chegados ao Cassongo, o mundo parecia diferente. As preocupações desapareciam. As gargalhadas ecoavam pelas margens, enquanto uns mergulhavam, outros aprendiam a nadar e muitos apenas se deixavam levar pela corrente suave das águas. Ali, a amizade fortalecia-se, as rivalidades terminavam com um mergulho e cada dia transformava-se numa lembrança para toda a vida.
O Cassongo também saciava a sede da cidade. Era dali que os enormes camiões-cisterna enchiam os seus depósitos para distribuir água à população. Ainda hoje, muitos recordam o rugido dos motores dos poderosos Scania e DAF, verdadeiros gigantes da estrada que impressionavam qualquer criança. Ficávamos horas a observá-los, sonhando um dia conduzir máquinas daquela grandeza.
Aos fins de semana e nos feriados, o Cassongo tornava-se um ponto de encontro. Gente de todos os bairros do Luena caminhava até ali. Uns levavam comida, outros apenas a vontade de estar entre amigos e familiares. Era um espaço onde não existiam diferenças. Todos partilhavam a mesma água, o mesmo sorriso e a mesma felicidade.
Naquele tempo, não precisávamos de telemóveis, internet ou redes sociais para sermos felizes. Bastava um rio, bons amigos e um dia inteiro pela frente. A riqueza estava nos momentos vividos e não nas coisas que possuÃamos.
Hoje, quando passamos pelo Cassongo, talvez já não encontremos o mesmo cenário. O tempo mudou a paisagem e transformou muitos costumes. Mas há algo que permanece intacto: as memórias.
Fechar os olhos é suficiente para ouvir novamente as gargalhadas das crianças, sentir o cheiro da terra molhada, recordar as longas caminhadas, ver os mergulhos, as brincadeiras e os grandes camiões carregando a água que abastecia a cidade.
O Cassongo foi mais do que um rio. Foi uma escola de amizade, um palco de aventuras, um lugar onde se construÃram histórias que jamais serão esquecidas. Uniu gerações, ensinou-nos o valor da simplicidade e deixou uma herança que o tempo não consegue levar.
Enquanto houver alguém para contar estas histórias, o Cassongo nunca deixará de correr. Porque há rios que transportam água… e há rios que transportam a memória de um povo inteiro.