José Moreira

José Moreira Escrevo porque acredito que a poesia é uma forma de resistência. Entre crises e liberdades, uso o verso para questionar a sociedade e a alma humana.

Procuro quem, como eu, sinta a urgência de passar da contemplação à ação.

02/09/2026

Geografia do Silêncio

Há ruas onde a noite chega mais cedo,
não por causa do sol,
mas porque a luz nunca foi para todos.

As paredes falam em tinta gasta,
nomes riscados, promessas por cumprir,
rostos que ninguém aprendeu a ler.

Na televisão, o país é outro —
limpo, direito, sem falhas visíveis,
um retrato onde não cabem estas esquinas.

Aqui, o tempo tem outro peso:
demora mais a passar
e menos a ser lembrado.

Os corpos aprendem cedo
a linguagem da contenção —
baixar os olhos, medir palavras, evitar existir demais.

E quando alguém grita,
não é só voz que se levanta,
é um mapa inteiro a recusar-se a desaparecer.

Mas há silêncios que resistem mais do que muros,
e há muros que se alimentam desse silêncio —
é assim que o mundo se organiza sem parecer injusto.

JM

02/09/2026

Hoje deixo a estrutura de cada sessão de treino guarda redes SUB6/SUB7
Todas as sessões devem ter uma arquitetura reconhecível.
1. ATIVAR - Preparar corpo e atenção.
2. EXPLORAR - Contacto com a situação que queremos ensinar.
3. ENSINAR - Explicação + demonstração + primeira execução.
4. REPETIR - Repetição com correção.
5. DECIDIR - Introduzir oposição, incerteza ou escolha.
6. APLICAR - Levar a aprendizagem para uma situação semelhante ao jogo.
7. REFLETIR - Perguntar ao guarda-redes:
“O que aprendeste hoje?”
Isto é importante.
Queremos que a criança saia do treino a saber o que aprendeu.
6. A ficha de identidade de cada exercício - Aqui proponho uma regra que vamos seguir em todas as sessões futuras.
Nenhum exercício entra no nosso modelo sem uma ficha deste género:
EXERCÍCIO Nº X
Nome:
Escalão:
Objetivo:
O que estamos a ensinar:
Por que estamos a ensinar:
Material:
Organização:
Execução:
Intervenção do treinador:
Erros mais frequentes:
Correções:
Progressão:
Regressão:
Critério de sucesso:
Transferência para o jogo:
Isto obriga-nos a responder à pergunta mais importante:
“Para que serve este exercício?”
Se não conseguirmos responder claramente, o exercício não entra no programa.

JM

30/08/2026

Não sou dono da verdade. E ainda bem.

Tenho partilhado aqui algumas ideias sobre treino de guarda-redes dos 6 aos 13 anos, procurando contribuir para uma reflexão sobre a forma como entendo que devemos ensinar e desenvolver os nossos jovens guarda-redes.

A enorme aceitação que estas publicações têm tido deixa-me muito satisfeito, mas quero deixar uma nota importante:

NÃO SOU DONO DA VERDADE!

Aquilo que apresento são ideias, princípios e propostas de treino baseados na minha experiência, reflexão e estudo. Devem ser testados no terreno, observados e avaliados.

Nenhum plano de treino deve ser visto como algo fechado ou intocável. Depois de testado, pode — e muitas vezes deve — ser ajustado às características dos guarda-redes, à idade, ao nível de aprendizagem, ao contexto e à realidade de cada clube.

Por isso, estou totalmente aberto a críticas, sugestões, opiniões diferentes e, sobretudo, ao diálogo. Quem quiser partilhar uma experiência, discordar de uma proposta ou simplesmente conversar sobre treino de guarda-redes, pode fazê-lo através de mensagem privada.

É também desse confronto de ideias que o treino evolui.

Paralelamente, estou a trabalhar na elaboração de um livro sobre treino de guarda-redes dos 6 aos 13 anos, onde procurarei organizar estas ideias de forma estruturada, progressiva e prática.

Quando estiver concluído, disponibilizá-lo-ei a quem o solicitar por um preço simbólico, porque a minha principal intenção é que este trabalho possa chegar a quem está diariamente no campo a ensinar e a formar crianças.

Partilhar conhecimento não significa ter a verdade.
Significa ajudarmo-nos uns aos outros a procurar melhores respostas.
O treino também se constrói com diálogo.

JM

30/08/2026

Continuemos a falar de treino de jovens guarda redes ...

Os cinco pilares da formação:

I — TÉCNICA
Ensinar o jovem a executar corretamente:
• posição base;
• deslocamentos;
• receção da bola;
• defesa de bolas rasteiras;
• defesa à altura do corpo;
• defesa de bolas altas;
• quedas laterais;
• ataque à bola;
• 1x1;
• jogo aéreo;
• reposição de bola;
• jogo com os pés.
Mas nunca ensinaremos uma técnica isoladamente da situação de jogo.

II — TÁTICA
O guarda-redes tem de aprender a ler o jogo.
Progressivamente deverá compreender:
• posicionamento em função da bola;
• posicionamento em função da baliza;
• relação entre bola, baliza e adversário;
• profundidade;
• ângulo de defesa;
• cobertura;
• quando sair da baliza;
• quando permanecer;
• quando atacar a bola;
• quando temporizar;
• posicionamento perante cruzamentos;
• situações de 1x1.
Aqui está uma das grandes diferenças entre ensinar a defender e simplesmente mandar defender.

III — FÍSICO-MOTOR
Nos mais pequenos, não devemos transformar o treino numa sessão de preparação física.
Devemos desenvolver:
• coordenação;
• equilíbrio;
• lateralidade;
• orientação espacial;
• velocidade de reação;
• agilidade;
• mobilidade;
• aceleração;
• desaceleração;
• capacidade de mudar de direção.
Tudo isto através de jogos e situações adequadas à idade.

IV — COGNITIVO
O guarda-redes deve aprender a pensar antes de agir.
Devemos trabalhar:
• atenção;
• perceção;
• antecipação;
• tomada de decisão;
• leitura da trajetória;
• identificação do perigo;
• escolha da resposta adequada.
A pergunta do treinador não será sempre:
“Defendeste?”
Também será:
“Porque fizeste isso?”
E essa pergunta pode valer mais do que cem remates.

V — PSICOLÓGICO
Sobretudo nas crianças, este aspeto é fundamental.
Devemos desenvolver:
• coragem;
• confiança;
• concentração;
• autonomia;
• responsabilidade;
• capacidade de lidar com o erro;
• persistência.
E há uma regra que considero essencial:
O erro não é uma interrupção do treino. O erro é matéria-prima para o treino.
Um jovem guarda-redes que tem medo de errar dificilmente aprenderá a decidir.

JM

28/08/2026

Decidi continuar com o treino específico de guarda-redes, dedicando atenção apenas aos mais jovens, dos Sub-6 aos Sub-13. Não porque não sejam importantes os restantes escalões, mas porque os principais erros de quem devia ensinar, são cometidos nestes escalões.
Formar é ensinar. E ensinar é fazer compreender.

A progressão dos Sub-6 aos Sub-13
Não podemos ensinar tudo a todos da mesma maneira.
A formação terá de ser progressiva.

SUB-6 / SUB-7
“Descobrir a baliza e a bola.”

A prioridade é criar uma relação positiva com o jogo.
Devemos trabalhar:
• coordenação;
• equilíbrio;
• manipulação da bola;
• deslocamentos;
• posição corporal;
• agarrar;
• bolas rasteiras muito simples;
• pequenas quedas;
• coragem para atacar a bola;
• jogos de reação.
Pouca complexidade. Muito movimento. Muito jogo.

SUB-8 / SUB-9
“Começar a defender com intenção.”

Introduzimos:
• posição base;
• deslocamentos laterais;
• enquadramento;
• defesa de bolas rasteiras;
• defesa à altura do corpo;
• quedas simples;
• ataque à bola;
• noções básicas de ângulo;
• reposição;
• primeiras situações de 1x1.
Começamos a perguntar: “Onde devias estar?”

SUB-10 / SUB-11
“Compreender a situação.”

Aumentamos a complexidade.
Devemos trabalhar:
• posicionamento;
• ângulos;
• deslocamentos específicos;
• quedas laterais;
• bolas aéreas;
• 1x1;
• cruzamentos;
• profundidade;
• antecipação;
• tomada de decisão;
• jogo com os pés;
• comunicação.
A pergunta evolui:
“Onde devias estar e porquê?”

SUB-12 / SUB-13
“Defender, decidir e participar no jogo.”

Aqui começamos a exigir maior autonomia.
Devemos trabalhar:
• posicionamento avançado;
• controlo da profundidade;
• 1x1;
• cruzamentos;
• jogo aéreo;
• segunda bola;
• situações de superioridade/inferioridade;
• construção desde trás;
• jogo com os pés;
• passe;
• comunicação defensiva;
• tomada de decisão;
• leitura coletiva do jogo.
A pergunta passa a ser:
“Que soluções tinhas e por que escolheste esta?”

Hoje fico por aqui!

JM

27/08/2026

Agora, que o início da época futebolista se aproxima a passos largos, vou começar a escrever sobre treino e formação. Como entendo que se deve começar pelo princípio, vou começar por fazer um introito sobre treino de guarda redes.

DAR REMATES NÃO É TREINAR UM GUARDA-REDES.
Digo-o sem rodeios: um jovem guarda-redes não aprende a defender porque um treinador lhe passa a bola e manda chutar.
Isso é dar remates.
Treinar é outra coisa.

Treinar é ensinar. É explicar. É demonstrar. É corrigir. É repetir. É fazer o jovem perceber por que razão deve fazer determinada coisa.
Não chega dizer:
“Fica aí e defende!”
O treinador tem de ensinar:
Onde estão os teus pés?
Onde está a bola?
Estás bem posicionado?
Qual é a distância à baliza?
Como deves deslocar-te?
Quando deves atacar a bola?
Como deves colocar o corpo?
Para onde podes orientar a defesa?
Quando a bola sai do pé do atacante, o que deves fazer?
E como te deves atirar?

Se o guarda-redes sofre o golo e ninguém lhe explica por que razão sofreu o golo, o que aprendeu?
Provavelmente, nada.

Na sessão seguinte, volta a acontecer o mesmo:
mais uma bola, mais um remate, mais uma defesa, mais um golo.
E chama-se a isso treino.
Não.

Uma criança não precisa de um treinador que lhe chute 50 bolas à baliza. Precisa de alguém que lhe ensine a defender a primeira.
As outras 49 servem para consolidar a aprendizagem.
É uma diferença enorme.
Porque formar um guarda-redes não é fabricar alguém que se atira para a bola.
É formar um jogador capaz de ver, interpretar, decidir e executar.
E quanto mais pequena é a criança, maior é a responsabilidade de quem ensina.
Não estamos ali apenas para ocupar uma hora.
Estamos a ensinar uma criança a jogar futebol.

Por isso, continuo a defender uma ideia que para mim não admite discussão:
FORMAR É ENSINAR.
CHUTAR BOLAS É FÁCIL.
ENSINAR UM GUARDA-REDES A DEFENDER É QUE É TREINAR.

JM

26/08/2026

VOZES DE UM TEMPO FERIDO

Há um ruído baixo no mundo,
que não passa nos noticiários,
um murmúrio de fome antiga
a atravessar fronteiras invisíveis.

Em Portugal,
as mesas contam histórias em silêncio:
pratos mais vazios do que ontem,
olhares mais pesados do que nunca.

A sopa dos pobres ferve devagar,
não só de legumes, mas de resignação,
colheres que rasgam o fundo da tigela
à procura de um resto de dignidade.

Casas com portas fechadas por dentro,
não para guardar segredos,
mas para esconder contas por pagar,
ordenados penhorados pela vida
que não cabe no fim do mês.

Pais que contam moedas como quem reza,
mães que dividem pão em partes impossíveis,
e crianças — sempre as crianças —
que aprendem cedo demais
o peso de não ter.

Mas o mundo não acaba aqui.
Ele sangra mais longe, mais alto, mais fundo.

No eco distante do Irão,
o céu já não é promessa —
é ameaça.

As balas não perguntam idades,
as bombas não distinguem sonhos,
e há corpos pequenos demais
para caberem na palavra “guerra”.

Crianças caem sem entender porquê,
com brinquedos ainda nas mãos,
como se a infância fosse interrompida
por um erro do universo.

Os pais gritam nomes no vazio,
procuram rostos entre o pó,
e o desespero torna-se idioma comum
numa terra onde a esperança foi evacuada.

Que mundo é este
que mede o valor da vida
em função da geografia?
Que justiça é esta
que pesa mais num lado do mapa
do que no outro?

Há riqueza acumulada em torres de vidro
e miséria encostada a paredes frias,
há quem escolha o que descartar
e quem nunca teve o que escolher.

Desigualdades que não são acaso,
mas sistema,
engrenagens bem oleadas
de um mecanismo que produz exclusão.

E nós, aqui,
entre o conforto e a culpa,
vamos vivendo
como se a distância fosse desculpa.

Mas não é.

Porque o mundo encolheu,
e a dor viaja mais rápido
do que a nossa vontade de agir.

Há uma criança em cada estatística,
um rosto em cada número,
uma história em cada silêncio
que escolhemos ignorar.

E, ainda assim,
há quem resista.

Há mãos que servem sopa
com mais amor do que recursos,
há vizinhos que partilham o pouco
como se fosse muito.

Há pais que, mesmo esmagados,
ainda encontram voz
para cantar aos filhos
um amanhã que não sabem garantir.

Talvez seja isso que resta:
um fio ténue de humanidade
a atravessar o caos.

Porque enquanto houver quem veja,
quem sinta,
quem se recuse a aceitar
que isto é normal,
o mundo ainda não está perdido.

Mas está ferido.
E a ferida —
essa —
já não se pode esconder.

JM

13/08/2026

NUNO PALMA, PROFESSOR CATEDRÁTICO E HISTORIADOR ECONÓMICO
‘Portugal está capturado por um capitalismo de compadrio’

https://paginaum.pt/2026/08/12/portugal-esta-capturado-por-um-capitalismo-de-compadrio

Entrevista com Nuno Palma, Professor Catedrático e reputado historiador económico, galardoado com vários prémios internacionais e autor dos livros 'As causas do atraso português' e 'O vício dos fundos europeus'. Nesta entrevista realizada na redacção do PÁGINA UM, Nuno Palma denuncia que Portugal está capturado por um "capitalismo de compadrio". Também faz uma análise crítica do país à luz do estudo 'Desbloquear o crescimento de Portugal', realizado em co-autoria com James Robinson, prémio Nobel da Economia (2024). E levanta o véu sobre um novo livro que está a escrever.

Também disponível no Spotify:

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Abril em FlorNasceu abril nas ruas acordadas,com cravos vermelhos nas mãos do povo. O silêncio antigo caiu nas calçadase...
12/08/2026

Abril em Flor

Nasceu abril nas ruas acordadas,
com cravos vermelhos nas mãos do povo.
O silêncio antigo caiu nas calçadas
e a esperança falou de novo.

Ecoou livre a canção proibida,
romperam-se grades sem ferro à vista.
Era a pátria a aprender outra vida,
era o futuro a nascer na conquista.

Na madrugada clara da história
ergueram-se vozes antes caladas.
Cada passo gravou na memória
a coragem de mãos entrelaçadas.

Não foi só um dia no calendário:
foi semente lançada no chão.
Liberdade — nome necessário
que floresce em cada geração.

Que abril nunca seja lembrança distante,
mas chama acesa em cada lugar.
Porque um povo livre é mais gigante
quando decide junto caminhar.

Poema selecionado para integrar a antologia “Vozes de Liberdade” da Editora Factual.

Apesar de Tudo, FloresceA luz aprende a existirno intervalo do frio.Algo despertasob a respiração da terra.Os ramos desa...
12/08/2026

Apesar de Tudo, Floresce

A luz aprende a existir
no intervalo do frio.

Algo desperta
sob a respiração da terra.

Os ramos desaprendem o peso.

O sol escreve
sílabas breves
na pele frágil das folhas.

Uma flor rasga o silêncio
e, nesse gesto mínimo,
o mundo reaprende
a sustentar-se.

As cidades soltam a sombra.
O vento atravessa
o osso do tempo.

Dormem sementes
no bolso do escuro.
Nelas, um futuro
em estado de murmúrio.

E o coração,
ainda incrédulo,
ensaia de novo
o ato de bater.

Não é estação:
é um pacto subterrâneo
entre a queda e a ascensão —
apesar de tudo, floresce.

Obra escolhida para integrar a Coletânea "O Canto das Folhas"

Endereço

Pinhal
Sobreira
4585-579

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