José Moreira

José Moreira Escrevo porque acredito que a poesia é uma forma de resistência. Entre crises e liberdades, uso o verso para questionar a sociedade e a alma humana.

Procuro quem, como eu, sinta a urgência de passar da contemplação à ação.

17/06/2026

DESABAFO A CAMÕES

Camões,
diz-me:
que versos escreverias hoje
sobre este Portugal?

Já não navegamos oceanos.
Navegamos incertezas.

Os jovens estudam e partem.
Os velhos trabalharam e contam moedas.
Há quem trabalhe todos os dias
e continue sem conseguir viver com tranquilidade.

As aldeias perdem gente.
As cidades ganham solidão.
Fala-se de progresso,
mas muitos f**am para trás.
E, no entanto,
há quem continue a sustentar o país.
Os bombeiros que acorrem ao fogo.
Os profissionais de saúde que cuidam.
Os professores que ensinam.
Os voluntários que ajudam.
As associações que unem pessoas
onde o Estado nem sempre chega.
Esses são os heróis que raramente aparecem nas epopeias.

Camões,
não te escrevo por saudade.
Escrevo-te porque Portugal
precisa menos de memória
e mais de futuro.
Este é o meu desabafo.

JM

14/06/2026

𝙐𝙢 𝙣𝙤𝙫𝙤 𝙨𝙞𝙩𝙚, 𝙪𝙢𝙖 𝙛𝙤𝙧𝙢𝙖 𝙢𝙖𝙞𝙨 𝙙𝙚 𝙚𝙨𝙩𝙖𝙧𝙢𝙤𝙨 𝙥𝙧𝙤́𝙭𝙞𝙢𝙤𝙨! | 𝙟𝙛𝙧𝙚𝙘𝙖𝙧𝙚𝙞.𝙥𝙩 | 𝙁𝙧𝙚𝙜𝙪𝙚𝙨𝙞𝙖 𝙙𝙚 𝙍𝙚𝙘𝙖𝙧𝙚𝙞

A Junta de Freguesia de Recarei tem agora um novo espaço digital, reformulado e personalizado, de forma a reforçar a proximidade dos Serviços e Atividades da Junta com a Nossa População.

O endereço 𝙟𝙛𝙧𝙚𝙘𝙖𝙧𝙚𝙞.𝙥𝙩 foi pensado e elaborado para ser mais um ponto de contacto e disponibilizar os Serviços da Junta de Freguesia "𝙣𝙖𝙨 𝙩𝙪𝙖𝙨 𝙢𝙖̃𝙤𝙨, 𝙚𝙢 𝙩𝙤𝙙𝙖𝙨 𝙖𝙨 𝙝𝙤𝙧𝙖𝙨".

Através do 𝘽𝙖𝙡𝙘𝙖̃𝙤 𝙊𝙣𝙡𝙞𝙣𝙚 que te permite todo um leque de serviços, desde solicitar um atestado até à submissão de requerimento para instalação de abastecimento de água, da linha de 𝘾𝙤𝙢𝙪𝙣𝙞𝙘𝙖𝙘̧𝙖̃𝙤 𝙙𝙚 𝙊𝙘𝙤𝙧𝙧𝙚̂𝙣𝙘𝙞𝙖𝙨 que agiliza e simplif**a a resolução de avarias e intervenções necessárias relativas aos nossos serviços e da 𝙇𝙞𝙣𝙝𝙖 𝙙𝙚 𝘾𝙤𝙣𝙩𝙖𝙘𝙩𝙤 direto, procuramos maior eficiência operacional, melhor gestão e monitorização dos pedidos, garantidos através da simplif**ação administrativa e pela envolvência e proximidade com toda Comunidade.

Neste espaço encontrarás também toda a 𝙞𝙣𝙛𝙤𝙧𝙢𝙖𝙘̧𝙖̃𝙤 𝙧𝙚𝙡𝙖𝙩𝙞𝙫𝙖 𝙖̀ 𝙖𝙩𝙞𝙫𝙞𝙙𝙖𝙙𝙚 𝙙𝙖 𝙅𝙪𝙣𝙩𝙖, assim como as 𝙉𝙤𝙩𝙞́𝙘𝙞𝙖𝙨 𝙚 𝘼𝙜𝙚𝙣𝙙𝙖 de tudo o quanto de desenvolve e realiza na Nossa Terra. Porque a transparência é essencial para o escrutínio e acompanhamento da atividade da Junta de Freguesia.

Será sempre um espaço Teu. Aberto às Tuas Sugestões e Propostas! Participa!

Este projeto foi realizado no âmbito de protocolo de estágio estabelecido com a Escola Profissional de Valongo e ainda mais valorizado por ter sido "construído por mãos Recaredenses" pelo aluno Rui Marques.

𝙈𝙖𝙞𝙨 𝙋𝙧𝙤́𝙭𝙞𝙢𝙤𝙨, 𝙈𝙖𝙞𝙨 𝙇𝙞𝙜𝙖𝙙𝙤𝙨. 𝙈𝙖𝙞𝙤𝙧 𝙏𝙧𝙖𝙣𝙨𝙥𝙖𝙧𝙚̂𝙣𝙘𝙞𝙖!

07/06/2026

IRMÃOS ESTRANHOS

Foram irmãos de aventuras e segredos no quintal,
mas agora passam como sombras,
sem reconhecer o laço original.

Um feriu com palavras, outro reagiu à altura.
O tempo dividiu e já ninguém quis ceder.

Tornaram-se estranhos que partilham sangue,
mas não diálogo.

Guardam ressentimentos na memória,
como se isso os definisse.

No entanto, sabem que o amor silenciado
não cura.

O reencontro tenta ocorrer em gestos discretos,
mas o medo de se perder e o receio
impedem a aproximação.

Basta uma frase ou toque suave
para restaurar o vínculo anterior.

JM

05/06/2026

SIRENE

Nenhuma criança deveria compreender
o signif**ado de uma sirene.

Deveria ser apenas um som.
Ou um objeto.
Nada mais.

Mas a guerra altera signif**ados.

O som transforma-se em ordem.
Interrompe refeições.
Brincadeiras.
Sono.

A sirene não pede.
Impõe.
Correr.
Esconder-se.
Esperar.

E assim,
um simples sinal sonoro passa a habitar
a memória da infância.

JM

04/06/2026

MÍSSIL

Dantes,
o céu pertencia aos pássaros.

Às nuvens.
À imaginação das crianças.
Que o desenhavam
com lápis azuis
e sóis exagerados.

Depois chegou o míssil.
Primeiro como notícia.
Depois como ruído.
Por fim,
como possibilidade.

E o céu deixou de ser distância.

Passou a ser ameaça.

Uma geração inteira
aprendeu a olhar para cima
não para sonhar,
mas para calcular o perigo.

JM

25/05/2026

O “b” no lugar do “v”

durante anos
riram-se das letras

como se a língua
tivesse obrigação
de nascer em lisboa

mas cada cidade
molda as palavras
com aquilo que vive

o porto fala
como quem sobe ruas íngremes

as sílabas vêm carregadas
de vento
de mercado
de cais
de oficina

trocam-se os vês pelos bês

não por erro

mas porque a voz popular
nunca pediu autorização
para existir

há pronúncias
que são geografias

e sotaques
que resistem
mais do que bandeiras.

JM

25/05/2026

Rasto do Tempo

O rasto do tempo permanece,
mesmo quando não o procuro
nas marcas do quotidiano.

Aprendo que o tempo não passa em vazio,
deixa vestígios discretos
em tudo o que atravessa.

Cada rasto contém mudança,
memória e desgaste
que moldam o que sou.

Observar este rasto
é reconhecer continuidade
entre instantes dispersos.

Entre presença e ausência,
o tempo persiste,
lembrando que viver
é também deixar marcas.

JM

24/05/2026

Tripas à moda do Porto

dizem que a cidade
ficou com as tripas
porque entregou a carne
a quem partia para a guerra

verdade ou mito
pouco importa agora

as cidades sobrevivem
também através
das histórias que escolhem acreditar

num tacho lento
cozem-se séculos

feijão
enchidos
dobrada
e o orgulho discreto
de quem aprendeu
a fazer abundância
com quase nada

as tripas à moda do porto
não são apenas comida

são uma filosofia antiga

a arte difícil
de alimentar muitos
quando falta quase tudo

JM

24/05/2026

O Jornal

A minha avó "Quina" lia muito
para os seus oitenta anos.

Todas as manhãs
lhe levavam o Jornal de Notícias
desde a loja do “Custovo”.

Depois sentava-se
à porta da cozinha,
de óculos baixos no nariz,
lendo devagar
como quem procura sinais do mundo.

As notícias dos acidentes
faziam-na parar.

Às vezes limpava os olhos ao avental
antes de continuar a leitura.

Havia nela uma tristeza antiga
pelas mortes dos desconhecidos.

Mas nos dias sem tragédias
fechava o jornal com desconfiança
e dizia:
“o jornal hoje não presta.”

Eu escutava aquilo em silêncio.

Só muitos anos depois percebi
que algumas pessoas leem
não para fugir da vida,
mas para sofrerem menos sozinhas com ela.

JM

24/05/2026

Anatomia do Rascunho

O primeiro traço nunca é o certo.
É uma hesitação visível.

Escrevo e apago por cima,
como se a mão duvidasse de si.

O papel acumula sombras,
linhas que não chegam a existir.

Há palavras que nascem tortas
e não aceitam correção.

Outras desaparecem sem resistência,
quase agradecidas.

No meio do rascunho
f**a sempre um corpo intermédio
entre o que penso e o que digo.

É ali que a escrita acontece.

Não na frase final,
mas no erro que a precede.

Dobro a folha.
Volto a começar noutro lado.

Como se escrever
fosse sempre recomeçar o gesto
de falhar melhor.

JM

Endereço

Pinhal
Sobreira
4585-579

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