26/08/2026
VOZES DE UM TEMPO FERIDO
Há um ruído baixo no mundo,
que não passa nos noticiários,
um murmúrio de fome antiga
a atravessar fronteiras invisíveis.
Em Portugal,
as mesas contam histórias em silêncio:
pratos mais vazios do que ontem,
olhares mais pesados do que nunca.
A sopa dos pobres ferve devagar,
não só de legumes, mas de resignação,
colheres que rasgam o fundo da tigela
à procura de um resto de dignidade.
Casas com portas fechadas por dentro,
não para guardar segredos,
mas para esconder contas por pagar,
ordenados penhorados pela vida
que não cabe no fim do mês.
Pais que contam moedas como quem reza,
mães que dividem pão em partes impossíveis,
e crianças — sempre as crianças —
que aprendem cedo demais
o peso de não ter.
Mas o mundo não acaba aqui.
Ele sangra mais longe, mais alto, mais fundo.
No eco distante do Irão,
o céu já não é promessa —
é ameaça.
As balas não perguntam idades,
as bombas não distinguem sonhos,
e há corpos pequenos demais
para caberem na palavra “guerra”.
Crianças caem sem entender porquê,
com brinquedos ainda nas mãos,
como se a infância fosse interrompida
por um erro do universo.
Os pais gritam nomes no vazio,
procuram rostos entre o pó,
e o desespero torna-se idioma comum
numa terra onde a esperança foi evacuada.
Que mundo é este
que mede o valor da vida
em função da geografia?
Que justiça é esta
que pesa mais num lado do mapa
do que no outro?
Há riqueza acumulada em torres de vidro
e miséria encostada a paredes frias,
há quem escolha o que descartar
e quem nunca teve o que escolher.
Desigualdades que não são acaso,
mas sistema,
engrenagens bem oleadas
de um mecanismo que produz exclusão.
E nós, aqui,
entre o conforto e a culpa,
vamos vivendo
como se a distância fosse desculpa.
Mas não é.
Porque o mundo encolheu,
e a dor viaja mais rápido
do que a nossa vontade de agir.
Há uma criança em cada estatística,
um rosto em cada número,
uma história em cada silêncio
que escolhemos ignorar.
E, ainda assim,
há quem resista.
Há mãos que servem sopa
com mais amor do que recursos,
há vizinhos que partilham o pouco
como se fosse muito.
Há pais que, mesmo esmagados,
ainda encontram voz
para cantar aos filhos
um amanhã que não sabem garantir.
Talvez seja isso que resta:
um fio ténue de humanidade
a atravessar o caos.
Porque enquanto houver quem veja,
quem sinta,
quem se recuse a aceitar
que isto é normal,
o mundo ainda não está perdido.
Mas está ferido.
E a ferida —
essa —
já não se pode esconder.
JM