02/08/2021
A vida na aldeia ❤️
Olá Cidade, como estás?
Daqui é a Aldeia. Escrevo-te com a corda na garganta, acredita.
Sempre que ligo a televisão, leio os jornais ou ouço a rádio, lembro-me de ti.
Ao longo das últimas décadas, roubaste-me as minhas crianças, sem qualquer piedade, iludindo os coitados dos pais com uma vida repleta de luxos e algo mais. Mentiste-lhes, enganaste-os, exploraste-os e roubaste-me o futuro.
Mas se esta minha carta te está a causar perplexidade, vamos a factos concretos:
Prometeste-lhes liberdade e não passas de uma tortuosa prisão. Coitadinhas das minhas crianças, que por aí saem dos pequenos apartamentos, descem à garagem, entram nas viaturas e são despejadas em escolas gigantescas, apinhadas de outros prisioneiros. Ao final do dia, o ritual repete-se em sentido inverso.
Aqui, calcorreavam pelas ruas, livres, até à escola, gritando aos passarinhos, uns com os outros, gritando à vida o valor da liberdade. Aqui o parque é a natureza que os rodeia. Aqui, o melhor ginásio é subir paredes, subir às árvores e descer terra abaixo em direção ao prado. Aqui, abraçam-se uns aos outros diariamente, sem medo de abraço algum. Aqui, a liberdade sente-se no respirar de cada inspiração e no bater do coração.
Prometeste-lhe educação mas os meus meninos, que me roubaste, crescem cheios de medos, fobias, atrofias e outras porcarias. Crescem calados sem dizer um simples "bom dia" a ninguém, seja na rua ou no elevador dos prédios onde moram. Crescem a desconfiar de toda a gente. Crescem a tentar chegar primeiro do que o desconhecido, a tentar roubar o lugar ao conhecido e a tentar serem mais espertos que a própria esperteza. No final, não respeitam nada nem ninguém, apesar de falarem com modos, sem sotaque, baixinho e com voz meiga.
Aqui, as minhas crianças crescem educadas pelo contexto, respeitando os mais velhos e estimando-se uns aos outros, cumprimentando quem passa, sempre, perguntando se está tudo ou se precisam de alguma coisa. Aqui o amor é puro, como a liberdade, as bases do humanismo que alimenta o crescimento sustentável. Aqui, não são precisos psicólogos ou psiquiatras para corrigir fobias, desvios ou comportamentos inadequados. Aqui, o silêncio é o melhor dos spas, o respeito o melhor dos professores, a realidade a melhor das motivações e as pessoas a maior das paixões.
Sabes todos aqueles "luxos" sonhados para as nossas crianças das grandes cidades: aqui são grátis e estão à distância de um simples querer.
Viver na aldeia não deveria ser considerado atraso de vida, deveria sim ser considerado uma portentosa oportunidade para viver em sustentabilidade social, económica e ambiental.
Todos falam do aquecimento global e do fim do mundo, mas o que é bom mesmo é continuar a apinhar milhões de pessoas em meia dúzia de quilómetros quadrados, e fazer de conta que está tudo bem.
Até posso estar errado, mas de uma coisa tenho a certeza: viver na aldeia será mil vezes mais saudável do que viver numa cidade com um, dois, três, cinco ou dez milhões de habitantes, por mais Ferraris, helicópteros ou naves espaciais que por ali abundem.
É tão bom viver em liberdade!
Texto e foto:
Paulo Costa
Reservados