29/05/2026
Há pessoas que não apenas contam a história de um povo. Elas se tornam parte dela.
Neste 29 de maio de 2026, as Missões perderam uma de suas vozes mais autênticas. Pedro Ortaça partiu aos 83 anos, mas deixou entre nós algo que a morte não alcança: o legado de quem transformou a memória de uma terra em música, poesia e identidade.
Natural de São Luiz Gonzaga, Pedro foi mais do que um músico missioneiro. Foi guardião de histórias, intérprete da alma de um povo e mensageiro de uma herança construída ao longo de séculos.
Em meus 27 anos dedicados ao jornalismo na televisão, tive o privilégio de encontrá-lo em muitas reportagens sobre a história missioneira sempre junto da família: a esposa Rose, os filhos Marianita, Gabriel e Alberto.
Uma delas permanece viva de maneira especial na minha memória. Foi durante a produção de uma das mais desafiadoras jornadas da minha carreira, relatada no livro Histórias e Bastidores, quando percorri Espanha, Portugal, Paraguai e Brasil para compreender as origens do povo das Missões.
Foi em São Luiz Gonzaga que encontrei Pedro Ortaça.
Ao falar sobre o legado missioneiro, ele não respondeu como um historiador. Respondeu como poeta.
Disse ele:
“Talvez seja por isso do sangue tuxá Sepé Tiaraju que os filhos das Missões que nascem nesta terra já nascem com a guitarra na mão, uma acordeona com a música dentro da alma, dentro de si, e a poesia para cantar esta terra.”
Era Pedro sendo Pedro.
Transformando história em verso. Memória em canção, identidade em sentimento.
Hoje o silêncio parece maior.
Mas basta ouvir uma de suas canções para perceber que Pedro Ortaça continua entre nós: na melodia de uma guitarra, no som de uma acordeona e na poesia que nasce do chão vermelho missioneiro.
Vai em paz, mestre Pedro Ortaça.
Sua voz agora ecoa na eternidade, enquanto seu legado segue vivo em cada filho desta terra que continua cantando as Missões.
E, como você mesmo ensinou, com a música dentro da alma e a poesia dentro do coração.