14/02/2024
Gosto tanto desse texto que hoje me sinto na obrigação de repostá-lo.
SER BOTONISTA
Quantas vezes se sentiu constrangido por alguém que riu após você dizer que jogava futebol de botão? Provavelmente, várias vezes. Assim como eu, você é um apaixonado por futebol e quando criança sonhava entrar em campo com chuteiras no pé e uma inflamada torcida gritando seu nome. Muitas vezes me imaginei chutando forte como meu ídolo Nelinho, carregando a bola em velocidade como o magnífico Dirceu Lopes ou, até mesmo, envergando a famosa camisa amarela do inexpugnável Raul. Mas a vida cobra atitudes que nos obriga a enterrar, ou deixar num cantinho escondidos, nossos sonhos de menino e partir para a luta da sobrevivência. Homem precisa ter uma profissão, ser pai de família exige gastos que um sonhador não poderá suportar. E lá vamos nós, enfrentar a árdua missão de ser adulto.
A esperança de ser jogador acabou. O que fazer para manter aquele brilho nos olhos ao nos imaginar num estádio com a camisa de nosso time do coração, orgulhosamente vestida?
Resta uma esperança... o jogo de botões de nossa infância está na mesma gaveta da cômoda esperando, pacientemente, para ser resgatado com louvor. Chama-se aquele amigo com o qual dividíamos as épicas batalhas no piso frio da varanda de casa, riscado com giz, para desespero da irmã mais velha que tinha acabado de passar, caprichosamente, uma camada de cera Cristal. Alguns cascudos e xingamentos não nos faziam desistir e Cruzeiro x Flamengo protagonizavam mais um clássico sensacional, com lances geniais de seus craques. Zico, Doval, Dirceu Lopes, Piazza, Natal e tantos outros desfilavam em nossa imaginação tão genuinamente quanto o faziam nos gramados do país.
O tempo, esse implacável inimigo da pureza e ingenuidade, passa tão rapidamente que, hoje, com mais de 50 anos não percebemos a necessidade de sermos sisudos e carrancudos. Passamos por cima de preconceitos e humilhações para não deixar morrer em nós essa essência da paixão pelo futebol de botões.
Agora temos botões que são ditos “profissionais”, madrepérola, ficha de pôquer, Paladon (ou Palaton) e etc. Os materiais variam, as cores e formas são magníficas, belíssimas obras de arte. Fabricantes se esmeram em produzir cada vez mais variedades e a criatividade não tem limites. Em nossa imaginação continuamos viajando como fazíamos quando moleques. Aquele chute certeiro, no ângulo, o passe longo para um botão desmarcado no ataque, tal qual o grande Gérson; essa emoção inexplicável jamais deixará de percorrer nossas veias e a paixão durará enquanto vida tivermos.
Se você nunca puxou fio da camisa novinha num parafuso lateral da mesa. Se nunca chutou o cavalete e teve que se desculpar com o adversário pela bagunça feita. Se nunca sentiu um frio na espinha ao ver seu botão cair no cimento duro. Se nunca assistiu, com o coração quase parando, aquele chute muito torto percorrer um caminho totalmente improvável e morrer manso no fundo de suas redes... Lamento muito, meu prezado amigo, mas você perdeu uma das partes mais saborosas de nossa existência.
Ser botonista é ser um sonhador, um romântico incorrigível. Aquele que sobrevive das fantasias, da imaginação. Somos botonistas com orgulho!
“Não deixamos de nos divertir porque envelhecemos, envelhecemos porque deixamos de nos divertir”.
PARABÉNS PARA TODOS NÓS!
14 de fevereiro, Dia do botonista